Ruben Sprich/ Reuters
Ruben Sprich/ Reuters

Luta de classe

No campeonato suíço de schwingen vale a força do braço, mas não porrada, e o vencedor é coroado rei do país - depois de suiçamente limpar a serragem do ringue das costas do derrotado

Felipe Mortara, de O Estado de S. Paulo,

07 de setembro de 2013 | 19h41

Eita frenesi danado em torno de um açougueiro! Da noite para o dia virou o cabra mais famoso da Suíça. Lá estava ele em todas as manchetes, todos os canais, dando entrevista com a cara quadrada e os olhos sem rumo. Não ficou célebre por protagonizar alguma carnificina. A fama veio no braço, mas sem porrada nem sangue. Agora, se for encarar, tu te lasca porque o bicho é grande. Um metro e noventa e quatro centímetros carregando 110 quilos. Nome e sobrenome: Matthias Sempach. Título de nobreza: Rei da Suíça.

  

Os helvéticos nunca souberam o que é monarquia, mas o país reconhece como rei informal-porém-legítimo o marmanjo que vencer o Federal Swiss Wrestling and Alpine Festival, realizado a cada três anos desde 1895 - antes, portanto, da primeira Olimpíada da era moderna, em Atenas, 1896. E no último fim de semana chegou a vez de Matthias Sempach, da vilazinha de Alchenstorf, conquistar a coroa de folhas de carvalho (infelizmente para Christian Stucki, colosso de 1,98 m e 140 quilos, que não perdia havia mais de um ano, não há trono de vice-rei). O prêmio para o vencedor? Um muni, um touro, de 2 anos. "A primeira palavra que aprendi a falar foi muni. Na hora deu um branco enorme, não conseguia crer que meu maior sonho tinha se realizado. Inacreditável!", afirmou Matthias ao Aliás.

 

Vamos aos pormenores. O nome do embate é schwingen, ou luta suíça, ou swiss wrestling. É um primo rural e alpino da luta greco-romana. O propósito não poderia ser mais singelo: derrubar o adversário de costas num chão coberto de serragem ou areia. Para isso, é permitido segurar apenas no calção de veludo amarrado por uma robusta cinta de couro (schwingerhosen), o que garante contato corporal mais intenso do que no metrô paulistano às 18 horas. Mas, ao contrário do mundo subterrâneo, no schwingen ninguém esmurra nem belisca ninguém. Já rasteira pode.

Só que para cada tipo de golpe e queda existe uma pontuação assaz complexa, que inclui notas quebradas como 8,75 e 9,50, tornando a coisa meio complicada para iniciantes. O livro de regras, um calhamaço, por sinal, ostenta requintes de precisão suíça como "perde o competidor que tocar o chão com 66% do dorso", mesclados a outros de nobreza britânica, da estirpe de "deve o vencedor limpar as costas do perdedor antes de saírem do ringue".

 

Os 30 mil habitantes de Burgdorf, dos quais 15 mil são vacas, estavam eufóricos com evento tão grandioso. A cidade pertence ao cantão de Berna e é porta de entrada para a sub-região de Emmental, que ganhou fama com o queijo clichê dos furinhos. Pelo parque de eventos, montado num pasto infinito a apenas dez minutos a pé da igreja matriz, passaram 300 mil pessoas em dois dias. Alguns demonstravam clara inveja dos que tinham o privilégio de ver a luta de perto, já que os ingressos evaporaram. A Confederação Nacional de Schwingen distribui 60% das entradas para suas afiliadas, que por sua vez as repassam a praticantes, amigos e familiares dos competidores. Uns 10% ficam com os patrocinadores e os outros 30% esgotam-se em meia hora quando postos à venda três meses antes.

 

No meio das 52.013 (nem mais, nem menos)testemunhas oculares diárias da história , regadas a 210 mil litros de cerveja debaixo de um sol escaldante (aparentemente inesperado, haja vista a quantidade de guarda-chuvas que carregavam), alguns mais exaltados se sobressaíam, chacoalhando inabalavelmente um belo sino de vaca de mais de 15 quilos.

 

Até ola rolou nas seis imensas arquibancadas de ferro, que compunham um hexágono perfeito, cinco das quais abrigavam torcidas das cinco regiões do país e uma, patrocinadores e vips, todos sentados em confortáveis cadeiras devidamente numeradas. No centro, um gramado de fazer inveja aos nossos de padrão Fifa, salpicado por sete simétricos ringues de serragem com oito metros de diâmetro cada. Cercas, grades, fossos para separar gladiadores do público? Apenas uma reles cordinha da altura da cintura. E, nas primeiras filas, jovens aficionados em cadeiras de roda. Haja civilidade!

 

Acontece que as lutas ocorrem ao mesmo tempo, difícil seguir a competição toda. Um entendido me ensinou: é que nem fila de supermercado, escolha uma e não saia dela. Após cada embate, os juízes decidem quem se enfrentará no próximo round. Oito rounds separam um simples mortal da coroa. Para não perder o fio da meada, há duas opções: seguir os confrontos atualizados pelo aplicativo do evento ou comprar uma tabela fresquinha numa singela folha de A4 reciclado vendida a 1 franco suíço por ambulantes voluntários. Sim, o ambulante não é remunerado. Foram mais de 70 mil horas de trabalho dos mais de 4 mil voluntários, como a professora Alexandra Kunz, moradora de Burgdorf, que no sábado assistia a tudo munida de seu app com a filha Lena, de 7 anos. No domingo venderia as tabelas sem embolsar nenhum vintém. "Nós adoramos isso, temos um orgulho danado desse esporte. No futebol tem muita vaidade, já isso aqui é a cara do povo suíço."

 

Bien sûr que tudo isso não é de hoje. Os primeiros registros remontam ao século 13, quando a luta era usada para medir a força dos camponeses no fim da Idade Média. Pelos idos de 1617, dois "schwingueiros" passaram uma noite no xilindró após a polícia do vilarejo de Grindewald achar que estavam se matando. Hoje, cerca de 170 clubes por todos os 26 cantões concentram 53 mil praticantes. Um contingente pouco imponente de 30 donzelas são filiadas à Women’s Schwing Association, fundada há 21 anos. Em tempos de globalização homogênea, o schwingen exerce papel-chave no movimento de resgate das tradições do país. Um morador local indagou: se nosso queijo não é pasteurizado, por que a cultura deveria ser?

 

Às 7h30 de sábado, pouco depois de as mimosas acordarem, os dérbis começaram, já com casa cheia. Os 278 brutamontes mais bem qualificados do ranking nacional vieram atrás do título máximo. Ao longo deste ano estão programadas outras 70 competições avulsas, que somam pontos para a próxima final, daqui a três anos em Estavayer-le-Lac, no cantão de Friburgo. Naquele sábado, o país inteiro estava ansioso para conferir se o então rei, Wenger Kilian - só o nome já põe medo, diz aí -, permaneceria no trono. Cansei de ver o graúdo em outdoors por todo o país. Era para ele dizer alguma coisa entre aspas neste parágrafo, mas, após perder na tarde de sábado, saiu de férias. Terreno livre para um novo ocupante do trono.

 

Cada ringue tem um número, e do alto-falante anunciavam-se as próximas pelejas. Nesta Suíça de quatro idiomas - alemão, francês, italiano e romanche, descendente direto do latim falado por uma minoria -, a maior parte das chamadas para os combates, cada um com sete minutos de duração, vem em alemão. Um ou outro francês escapava, o que gerava certa confusão. Especialmente em quem não tinha a menor ideia do que estava fazendo ali.

 

A camiseta de listras horizontais verde-amarelas, com um brasão do Clube de Regatas Flamengo na altura do coração, destoava sem esforço na galera de camisas azul-claras com bonés cor de creme que ocupava as arquibancadas. Um novo fã descobrira o esporte havia poucas horas: Silvio Leite, nome a calhar a um veterinário especialista em vacas que visitava a Suíça para um simpósio. O acaso levou o carioca de 34 anos ao Alpine Festival. Em Berna, um relojoeiro argentino recomendou que Silvio Leite trocasse a visita à pequenina e medieval Thun ("Mas que ideia besta. Não há nada a fazer por lá") pela grande festança do país ("Tienes que irte a Burgdorf"). Com a coragem dos ignorantes, ele embarcou no primeiro trem. Com a sorte dos desavisados, barganhou um ingresso de 111 francos por 40. "Uma loucura! Um relógio quebrado e um relojoeiro argentino me fizeram parar neste lugar incrível."

 

Os números de audiência mostram a popularidade do schwingen. Ao longo de 18 horas ao vivo, a emissora de televisão SRF obteve 79,4% de share, com pico de 920 mil telespectadores na final. Em tempos de UFC, octógono, pay-per-view na madrugada e porrada a granel, como faz sucesso uma luta em que não vale tudo!

 

Chegamos à grande final. Como o sobrenome vem em primeiro lugar, apresentemo-los solenemente: de um lado, pesando 140 quilos, invicto há um ano, o rechonchudo e querido gigante Stucki Christian, da cidade de Lyss. Do outro, pesando 110 quilos, a grande estrela local, meio galã, meio ogro: Sempach Matthias. Enquanto a arena fervia, o futuro campeão lia os sinais que o imenso oponente emitia. "Desde o começo senti que Stucki não estava completamente desperto, parecia um pouco cansado", recordou Matthias. Quando o gigante acordou, já era. O novo monarca levava para casa um touro no valor de 22 mil francos suíços, uns R$ 55 mil. A quem estiver a temer pela integridade do pobre touro nas mãos de um açougueiro, o rei Sempach anuncia seu nobre (e surpreendente) plano: "Amo esse animal genial muito mais que o dinheiro, então vou trabalhar com ele. O que significa que venderei seu esperma para fazer um monte de fofos bezerrinhos".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.