Lutzenberger, o pioneiro verde

Agrônomo moldou militância ecológica no País

MARCELO BERABA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h05

A história da consciência e da militância ecológicas no Brasil tem como um de seus fundadores o agrônomo gaúcho José Lutzenberger. Ele foi, nos anos 1970, o pioneiro agitador das causas ambientais num país que expandia suas fronteiras econômicas derrubando e queimando florestas e invadindo o Cerrado.

Conheci-o em Curitiba, em abril de 1977. Ele estava com 50 anos e tinha uma história de conversão. Fora, durante 13 anos, executivo e assessor técnico da Basf, uma das maiores empresas de produtos químicos do mundo, inclusive agrotóxicos. Morou a serviço da empresa na Alemanha, Venezuela e Marrocos. Em 1970, pediu demissão. Foi uma reação à "revolução verde" iniciada na década de 1960 para aumentar a produtividade do campo com o estímulo ao consumo de agrotóxicos, fertilizantes, sementes geneticamente melhoradas e mecanização.

De volta ao Rio Grande do Sul, ajudou a criar a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), uma das mais antigas organizações não governamentais do País, e criou o conceito de "agricultura regenerativa" (que hoje poderia ser chamada de orgânica) para contrapor à "revolução verde".

O País vivia uma ditadura militar com o presidente Ernesto Geisel (1974-1979) e muitos jornais e revistas continuavam sob censura. As mazelas ambientais herdadas do efêmero "milagre econômico" e a expansão desordenada das fronteiras agrícolas raramente eram criticadas. Lutzenberger teve o mérito de expor esses problemas publicamente, procurando os meios de comunicação. Ajudou a construir o que na época se identificava como "consciência ecológica" juntando seus conhecimentos técnicos à agitação da militância, então uma combinação rara.

As queimadas ("orgia piromaníaca que floresce em nosso País") e a devastação das florestas eram então suas principais preocupações. Mas o angustiavam também grandes questões - como o acordo nuclear com a Alemanha e o processo de industrialização do País sem atenção aos efeitos da poluição - e problemas localizados, como a drenagem dos banhados e a retificação dos rios. O seu discurso parecia na época exageradamente catastrofista. "Sinto a destruição da natureza como a destruição do meu próprio corpo. Por isso, grito."

Naquela conversa, 35 anos atrás, ele se posicionou sobre um assunto que não estava na agenda dos países e que agora, nesta Rio +20, divide governos e políticas públicas. "O que a ecologia propõe é um abandono, em primeiro lugar, do fetiche do crescimento. Tanto países capitalistas como países comunistas partem do dogma de que precisamos de um crescimento constante, um crescimento exponencial. Cada ano a economia tem de crescer numa certa porcentagem. Quanto maior essa taxa, mais progresso. Isso é uma corrida insustentável e que acabará, na certa, em desastre."

E defendeu a ação dos conservacionistas, frequentemente ridicularizados. "O ecologista é muitas vezes mal entendido: pensa-se que ele é contra mexer com a natureza, que ele não quer que se mate um bichinho, que se derrube uma árvore. Não é isso. O que nós queremos é que sejam estabelecidos métodos de produção que signifiquem produção constante e permanente sustentáveis. Uma forma de produção que signifique felicidade atual, mas que não signifique desastre para as gerações futuras."

Em 1987, Lutzenberger criou a Fundação Gaia, que acaba de completar 25 anos de atividades, e entre 1990 e 1992 foi secretário especial do Meio Ambiente da Presidência da República, no governo Fernando Collor, deixando o cargo três meses antes da Eco-92. Morreu em 2002, entre as duas conferências da ONU no Rio.

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