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Macho man

Grosseria de um tea partier com a mulher sugere que a obsessão desses radicais contra os mais fracos oculta o medo da ascensão feminina

Lee Siegel ,

26 Outubro 2013 | 15h26

 Pouco depois de o mundo inteiro assistir, com desprezo, ansiedade e fascínio, aos EUA oscilarem à beira de um calote de sua dívida, um gesto singelo no grande palco político talvez possa explicar a fanática disposição do Tea Party de humilhar o país que afirma amar.

Quase no mesmo momento em que Obama e os republicanos chegavam a um possível acordo sobre a dívida - desamarrando com isso o governo e salvando a economia -, o democrata Cory Booker, que é negro, derrotava o candidato do Tea Party, Steve Lonegan, na disputa por uma cadeira aberta para o Senado em New Jersey. Enquanto Lonegan fazia o pronunciamento de admissão da derrota, sua mulher pôs uma mão solidária em seu ombro. Lonegan afastou rudemente a mão.

Ali estava, em resumo, a causa da loucura destrutiva e autodestrutiva do Tea Party. Uma passagem de um ensaio de D. H. Lawrence me veio à lembrança: “O homem é um fenômeno sobre a face da Terra. Mas os fenômenos têm suas leis. Uma das leis do fenômeno chamado ser humano é que, se esse ser for mortalmente ferido em seu fundamento sexual, sua reação resultará finalmente em alguma forma de matança”.

Sentindo-se derrotado, emasculado por Booker, Lonegan claramente não conseguiu suportar a mão consoladora da mulher, que só aguçou seu sentimento de ter sido castrado. Permitam-me especular mais um pouco. Ser derrotado por um negro, sobre quem, ademais, correm rumores de ser gay, foi um golpe triplamente esmagador para Lonegan. Naquele momento, a força de uma mulher se tornou insuportável para ele. Lonegan, e milhões de homens como ele, foram mortalmente feridos em seu fundamento sexual.

Há muitas razões para a alienação e o ódio sentidos pelo Tea Party e seus simpatizantes. A economia do país está mudando num ritmo acelerado na medida em que empregos na indústria manufatureira e atividades de escritório obsoletas estão sendo substituídos por trabalhos relacionados à internet que tornam o trabalho manual ultrapassado, mas também requerem uma proficiência intelectual em áreas altamente técnicas e tecnológicas. A situação demográfica do país sofre igualmente uma rápida transformação. Dentro de alguns anos, os brancos serão minoria.

Mas a tendência mais fundamental, e, na experiência desses brancos de meia-idade que estão se tornando economicamente dispensáveis e politicamente impotentes, ainda mais desestabilizadora, é a ascensão das mulheres.

A emancipação das mulheres começou nos anos 1970, mas somente agora entrou numa fase em que se tornou uma nova norma estrutural. Para todo lado que se olhe, elas estão em ascensão. Lideram corporações, comandam grandes jornais, sentam-se em cortes supremas, publicam romances importantes e livros de não ficção, são tema e autoras de um número crescente de filmes e programas de televisão. Mesmo que Hillary Clinton perca a corrida para a presidência em 2016, sua proeminência tornará a realidade de uma mulher presidente uma questão de anos nos EUA. E se ela perder, perderá por uma margem significativamente pequena.

Já é bastante difícil para muitos homens se sentirem subordinados a mulheres no local de trabalho e culturalmente. Para homens que foram humilhados e privados de poder pela economia, a ascensão das mulheres é insuportável. Contrariedades no âmbito de dinheiro e sexo são traumas básicos.

A direita deste país diz que teme o paternalismo do governo grande, mas isso é impreciso. O que ela teme é o maternalismo do governo grande. Para homens feridos em seu fundamento sexual, a mais leve amostra de compaixão é uma ameaça à vida. Essa é a fonte do ódio conservador contra as reformas da saúde de Obama, apesar de essas reformas virem a salvar a vida de muitos desses conservadores. Essa é a fonte do amor da direita pelas armas, mesmo depois de eventos como o massacre de Newtown. Em algum lugar nas profundezas de seu subconsciente ferido essas pessoas devem sentir, mesmo que seu consciente se horrorize ante o pavor da violência, alguma satisfação por haver gente sofrendo mais do que elas. Essa ascensão das mulheres é a fonte de sua recusa em apoiar a ajuda federal a mães pobres, a crianças em idade escolar pobres, ao fraco e ao idoso. Qualquer tipo de ajuda do governo é como o toque terno, compassivo, maternal, da mulher de Lonegan. É um insulto intolerável, uma ajuda fatal.

Seria fácil manter distância e zombar desse pessoal por suas angústias e inseguranças, mas é desumano não se compadecer dele. Como pai de uma menina de 3 anos, eu sinto apenas felicidade e empolgação pelo fato de as mulheres estarem finalmente se emancipando. Outro dia, um menininho empurrou minha filha para o lado no playground - e ela pediu desculpas. Meu coração se apertou. Não quero viver numa sociedade em que as mulheres sejam encorajadas a pedir desculpas quando se sentem injustiçadas. Não duvido que, em razão dos avanços que as mulheres estão fazendo agora, minha filha, quando crescer, jamais venha a ter de se desculpar para qualquer homem que a trate indignamente.

E não sinto a menor compaixão pelos homens que continuam a maltratar mulheres em estratos da sociedade aos quais a emancipação feminina ainda não chegou. Enquanto juízas, advogadas, médicas, políticas, artistas, avançam a passos largos, garçonetes, faxineiras, secretárias e outras continuam sofrendo a ira vingativa de egos masculinos feridos. As mulheres educadas, afluentes, não deveriam se sentir triunfantes em sua nova posição na sociedade até que todas as mulheres estejam emancipadas e protegidas.

Mas há também muitos homens decentes que apoiam o Tea Party porque não veem outro lugar para onde se voltar. Eles foram realmente esquecidos pela cultura e pelos grupos sociais recém-estabelecidos. Aliás, o Tea Party em si, por ser tão desligado da realidade e tão disfuncional em suas demandas, está a poucos anos apenas da extinção. Se os americanos quiserem uma sociedade mais justa, terão de tentar ajudar esses homens abandonados a recuperar a saúde, sem fazer a menor concessão a sua doença. / Tradução de Celso Paciornik

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