Madeira ganha usinas gigantes

As duas maiores hidrelétricas em construção no País mudam paisagem e economia regional

Adriel Diniz, PORTO VELHO (RO), O Estadao de S.Paulo

03 Dezembro 2009 | 00h00

O silêncio da floresta foi rompido por máquinas, explosões e movimento. Mas nem só a calmaria amazônica foi alterada em Porto Velho, capital de Rondônia, com o início, em 2008, da construção de duas usinas hidrelétricas no Rio Madeira. Jirau e Santo Antônio são, juntas, as maiores obras do setor de energia em andamento no País e representam o início de um novo ciclo econômico na região.

No topo da lista dos maiores investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), as obras empregam cerca de 14 mil trabalhadores. Santo Antônio, a 10 quilômetros de Porto Velho, tem linhas de ônibus para transportar seus operários. Jirau, a mais de 100 quilômetros da cidade, fez explodir a população de um pequeno distrito vizinho à obra.

A população não para de crescer e mesmo assim não preenche a demanda por emprego. Segundo o Ministério do Trabalho, este ano o aumento do emprego é de mais de 230% em relação ao ano passado. O Produto Interno Bruto (PIB) de Rondônia cresceu 5,2% este ano, já representa 11,2% e é o terceiro maior da Região Norte. O Estado tem um dos maiores índices de População Economicamente Ativa (PEA) do País: 94,61%. Nos próximos três anos, deve atingir 96%. Até junho, Porto Velho arrecadou mais de R$ 11 milhões em impostos.

Mas tanta euforia também cria problemas. "Há uma sensação de descontrole", diz o sociólogo Vinicio Martinez, que chegou há menos de um ano à cidade. O trânsito, já considerado o mais violento entre as capitais brasileiras, reflete o aumento vertiginoso da frota. Em 2003, segundo o Departamento de Trânsito do Estado, eram cerca de 61 mil veículos registrados em Porto Velho. Em 2008, já era mais que o dobro, e até setembro deste ano, os carros novos já superavam os 130 mil.

Com sinalização precária, ruas mal conservadas e cheias de buracos, Porto Velho tenta, no improviso, buscar soluções. "Não dá pra saber qual é a sua preferencial", reclama Martinez. Além do trânsito, dos acidentes e da poluição, a violência urbana é destacada pelo sociólogo, que defende investimentos em programas sociais de inclusão da população mais pobre, "que é quem mais comete e mais sofre violência".

Já a economista Juciana Ribeiro, que mora em Porto Velho desde que nasceu, é taxativa: "Faltou planejamento". Ela recorda os outros ciclos econômicos de Rondônia, como o da borracha e do ouro, que se foram e não deixaram riquezas para as pessoas. "E, quando acabarem as obras, o que esses trabalhadores farão?", questiona.

Para a Federação das Indústrias de Rondônia (Fiero), o crescimento de cerca de 8% este ano deve continuar mesmo após o fim das obras. A chegada de grandes empreendimentos, como uma fábrica de cimento e uma metalúrgica, se alia à perspectiva de integração com a reativação da BR-319, que liga Rondônia ao Amazonas, e a ligação com o Oceano Pacífico, pela Rodovia Interoceânica, que deverá ser finalizada no ano que vem.

Enquanto o futuro não chega, Porto Velho corre contra o tempo. A capital rondoniense recebe as obras de construção da rede de esgoto, hoje privilégio de 3% da população. Ao final do investimento, 70% dos moradores terão acesso e a água deve chegar a quase 100% da cidade. Ambos os investimentos são provenientes do PAC, com contrapartida do Estado.

A prefeitura trabalha na pavimentação de ruas e construção de casas, também com recursos federais. Mas, nem assim, a sensação de descontrole descrita pelo sociólogo parece ser amenizada, pois as compensações não têm o mesmo ritmo das obras das hidrelétricas.

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