Rame Alsayed/Reuters
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Mãe de todos os fracassos

A não intervenção em Ruanda, o maior erro internacional recente, permitiu um genocídio. É uma lição de como não proceder diante de uma catástrofe iminente, afirma especialista

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2014 | 15h37

Na quinta-feira, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade a criação de uma nova força de paz de 12 mil soldados para a República Centro-Africana, onde um golpe de Estado instalou um governo muçulmano brutal em março de 2013. A violência entre muçulmanos e cristãos já matou dezenas de milhares de pessoas na ex-colônia francesa, apesar da presença de 2 mil soldados franceses e de uma força provisória de 5 mil da União Africana.

Na semana em que o mundo marcou os 20 anos do genocídio em Ruanda, uma tragédia anunciada que poderia ter sido prevenida, a responsabilidade internacional de proteger civis de massacres continua tema de discussão e, pior, a mesma hesitação que permitiu Ruanda continua fazendo vítimas. Todas as promessas piedosas feitas pelo Ocidente depois dos 800 mil mortos de Ruanda não impediram as mais de 130 mil mortes em três anos de guerra civil na Síria. Mas Ruanda foi um marco no debate sobre a intervenção humanitária, como explica Joshua Goldstein, professor emérito da American University e historiador especializado em conflitos armados e operações de forças de paz. Goldstein é autor do elogiado Winning the War on War: The Decline of Armed Conflict Worldwide (Ganhando a Guerra Contra a Guerra: O Declínio dos Conflitos Armados em todo o Mundo), publicado em 2011, em que mostra como a guerra tradicional entre nações deu lugar a conflitos localizados. A narrativa do livro de Goldstein atribui um papel importante à ação humanitária de organizações internacionais e, especialmente, a mais de 60 anos de experiência da ONU em forças de paz.

Em seu livro de 2011 sobre o declínio dos grandes conflitos armados o senhor lembra que a primeira década deste século registrou menos mortes em guerras do que cada década dos cem anos anteriores. Espera que essa tendência continue em 2014?

Sim, houve uma grande mudança no mundo dos conflitos. As guerras entre exércitos regulares com armas pesadas, tanques e mísseis estão desaparecendo. Tivemos Irã-Iraque de 1980 a 1988, Etiópia-Eritreia, de 1998 a 2000, a breve guerra do Paquistão contra a Índia e a última no Iraque, de 2003 a 2011. Quanto à escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia, o custo é simplesmente exorbitante para que a solução seja militar. Pode dar nisso, mas não é o que avalio. Não digo que grandes guerras tenham sido extintas, mas no momento elas são incomuns. Os conflitos hoje são guerras civis entre forças de um governo e rebeldes, como é o caso da Síria.

Como vê a disposição internacional para intervenções humanitárias, no contexto pós-recessão na Europa e nos Estados Unidos?

A recessão econômica não é fator determinante. Veja os números americanos. Cada família, nos EUA, contribui com US$ 600 de sua renda para as Forças Armadas e só US$ 2 são destinados a missões de paz. A França, por sua vez, toma a iniciativa de mandar tropas ao Mali, é seguida por tropas da ONU e a despesa é pequena no orçamento do país. O problema das forças de paz é a lentidão e a burocracia do Conselho de Segurança. Veja o que está acontecendo na República Centro-Africana e no Sudão do Sul. A violência recomeçou e a comunidade internacional não responde com a rapidez necessária. O dilema é que, geralmente, o primeiro a chegar é um ex-poder colonial, como no caso da França. Ou então um vizinho como o Chade, que já tinha problemas com a República Centro-Africana. Mas é importante ter o aval do Conselho para não haver distorções, como a Rússia dizer que está defendendo a Crimeia ou os EUA afirmarem que invadiram o Iraque para nos proteger.

E a atual composição do Conselho de Segurança na questão de intervenções humanitárias, com maior resistência de Rússia e China? É importante reformar a composição do CS?

Não podemos generalizar. No caso da extensa operação na República Democrática do Congo, no começo da década passada, a China deu apoio à intervenção sem restrições, num caso em que seus interesses regionais, e falo de Taiwan, não eram afetados. Quanto à reforma do Conselho, não acredito que vá acontecer tão cedo. Os esforços, até então, não foram a lugar algum. Qualquer mudança requer a aprovação dos cinco países com poder de veto, e dificilmente um deles votará para ter seu poder diminuído. Acho que podemos encarar o Conselho como um órgão que representa mais ou menos o equilíbrio do poder militar no mundo, não um órgão democrático. Se instituíssem uma rotação mais frequente, envolvendo países como Brasil e Índia, a questão da não representatividade poderia ser amenizada.

Quanto a guerra na Síria reflete as limitações do Conselho de Segurança?

Não existe acordo na questão síria, ao contrário do caso do Congo. Há poderes tomando partido dos dois lados, o que congela o Conselho. Dito isso, nunca consegui me convencer de que a opção era intervenção militar, por causa da oposição fragmentada que ajudou a produzir essa guerra sangrenta e prolongada. Mas acredito que a comunidade internacional poderia ter sido mais produtiva. Antes do primeiro veto russo, os outros países poderiam ter tentado negociar melhor com a Rússia. Teriam obtido uma resolução fraca, mas quem sabe abririam corredores humanitários em 2012, com negociações políticas como as que foram realizadas mais tarde em Genebra. Dessa forma, o problema da Síria teria continuado na arena do Conselho e Bashar Assad receberia o recado "estamos de olho em você". Mas os EUA colocaram a Rússia sob luz negativa, decidiram que Assad tinha de ir embora e, depois do terceiro veto russo no Conselho de Segurança, ele se sentiu fortalecido.

O senhor responsabiliza Barack Obama por aquele momento de hesitação em setembro de 2013, após o ataque com armas químicas em que ele ameaçou intervir para em seguida escolher a mediação via Rússia?

Não culpo o governo Obama porque não acredito que houvesse opção melhor. O povo americano não daria apoio a um ataque militar nem mesmo no caso de armas químicas. Os aliados também não. Apoiei a intervenção na Bósnia. Mas deve haver alguma viabilidade para a missão. O fato de as pessoas estarem sendo massacradas não quer dizer que se deva intervir sem chances de sucesso. Apoiei também a intervenção na Líbia, porque Kadafi estava pronto para arrasar Bengazi, uma cidade de 700 mil habitantes. Putin diz que foi enrolado por Washington, que tinha prometido não tentar derrubar Kadafi. Os EUA sempre criam problemas quando querem trocar um regime. Alienaram Putin e agora estamos pagando por isso na crise da Ucrânia. Gostaria de ter algum otimismo em relação à Síria, porém as opções diminuíram. Podemos armar rebeldes, tentar atrair a Rússia de volta, mas, com a crise na Ucrânia, não acho que seja possível.

Com as reflexões no 20º aniversário do genocídio em Ruanda, o senhor fortaleceu sua convicção sobre a importância da intervenção humanitária?

O que aconteceu em Ruanda ilustra bem o perigo de não intervir, e aqui destaco que estamos chegando a um ponto crítico na Síria. Ruanda foi o maior fracasso da comunidade internacional, que podia ter impedido o genocídio e não o fez. É uma lição sobre como não proceder diante de uma catástrofe iminente. Lembro que o genocídio aconteceu num momento em que o Ocidente tinha demonstrado fraqueza na reação na Bósnia. E, meses antes, os EUA viveram o humilhante episódio do Black Hawk Down, em Mogadiscio, quando as forças especiais americanas foram surpreendidas por rebeldes que mataram 18 soldados e feriram dezenas. O então presidente Clinton não queria ouvir falar de intervir na África.

Como equilibrar o respeito à soberania territorial com a proteção de populações sob ameaça de uma tragédia?

A ordem internacional é baseada no conceito de soberania que precede questões de direitos humanos ou de democracia. É uma ordem que tem seu mérito. Pense na estabilidade das fronteiras internacionais desde o final da 2ª Guerra. É bom que seja assim, e é a base para as Nações Unidas. Há pequenas disputas territoriais, mas a tendência é não haver nada em grande escala. Se é possível impedir que aconteça um genocídio, primeiro se tenta negociar com um governo e, se a negociação fracassa, eventualmente a soberania de um país pode ser violada. É uma noção que está em evolução desde o genocídio de Ruanda. O Brasil, por exemplo defendeu, durante a crise da Líbia, a ideia de que haveria regras para intervir para proteger a população e não para derrubar um regime. O problema é que, de maneira geral, ex-colônias se opõem a isso porque veem na intervenção humanitária uma desculpa maliciosa para restabelecer o status quo do passado, um pretexto dos poderes ocidentais para controlar o destino de nações vulneráveis. É uma questão muito sensível. Ela afeta agora a República Centro-Africana. E ainda temos a China, que, com sua fixação em Taiwan, tende a expressar ceticismo sobre as missões. Há também o argumento do "risco moral", com o qual não concordo. Sob esse argumento, uma força rebelde procura para atrair a comunidade internacional e derrubar um governo. Mas as piores atrocidades que conheço, em Ruanda, Bósnia ou Síria, não aconteceram por causa de uma promessa de intervenção externa. Os governos fizeram o que queriam fazer, sem se preocupar com conseqüências.

Quanto a mídia digital e as redes sociais têm afetado a reação a crises humanitárias?

Hoje temos a vantagem de conhecer em detalhes as atrocidades na Síria, por exemplo. A população está registrando tudo com seus celulares. Mas há também uma ironia. Depois de ser bombardeados pela milésima imagem de feridos ou refugiados, podemos ficar anestesiados. Vemos situações como "fadiga de doador", "fadiga de reação." Mas o fato é que a mídia social pode envergonhar um país diante do mundo, é uma forma de invadir sua soberania. Veja o caso do bebê de nove meses acusado de assassinato no Paquistão. Também foi importante na Tunísia, o único país da Primavera Árabe que sobrou em boas condições. Mas não acredito em indignação viral, como no caso daquele vídeo do líder messiânico Joseph Kony que estava cheio de incorreções e não levou a nada. Agora ele é caçado por forças especiais americanas no centro da África.

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