Mães perderam a fé na justiça

Uma delas entrou no curso de Direito e desistiu

O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2012 | 03h01

Não importa quanto tempo passe. Os 15 anos para a primeira sentença, os 25 anos para a abertura da possibilidade de ressarcimento ou os anos que estão por vir até a conclusão do processo. Para a professora aposentada Joana D'Arc de Oliveira, de 56 anos, falar de seu filho Roberto Luiz Michelon Pinto Junior é tocar em uma ferida aberta.

Juninho, como era chamado, tinha 5 anos quando a família de Serra Negra procurou, em Campinas, o tratamento para a leucemia do menino, em fase inicial. "Eu tinha trabalhado em hospital. Quando meu filho ficou doente, descobrimos bem no começo. Ele tinha 1% de células contaminadas", conta a mãe do paciente, morto aos 16 anos.

"Ele tinha no mínimo 80% de chance de ficar curado, segundo os médicos. Depois do uso do Oncovin, a doença dele se tornou resistente e a chance de cura caiu para 30%. A vincristina era fundamental para ele entrar em remissão", diz Joana, chorando.

"A sensação é de que o filho da gente foi assassinado e o criminoso está impune", afirmou. "Nós somos passíveis de erro, mas ter uma fórmula na mão e errar com um medicamento como esse, eu não me conformo."

Joana não se conformou mesmo. Com Juninho ainda vivo, foi fazer faculdade de Direito. Com uma advogada, entrou na Justiça contra o laboratório. Perdeu em segunda instância. Ao saber da decisão do TRF, ficou sem reação. "Eu gostaria que os responsáveis pagassem, de alguma maneira, mas meu bem maior se foi", diz a mãe. "Fui fazer Direito para tentar um caminho justo. E foi por ver como é a Justiça brasileira que desisti do curso, no último ano. Não estou falando de todos os juízes, mas a Justiça, em geral, é para os ricos."

Outro caso. A contabilista Edna de Castro Gonçalves Dias, de 64 anos, saía de Poços de Caldas (MG) com o filho Célio Gonçalves Dias Júnior quando ele tinha 3 anos e 8 meses, rumo a Campinas. Tinha esperança de que seu filho ficasse curado da leucemia linfoide aguda. "O Oncovin era e é a droga mais eficaz para o tratamento, mas não no caso do meu filho nem daquelas outras oito crianças.

Célio Júnior também morreu aos 16 anos. E Edna nem tinha mais esperanças na Justiça. "Achei até que tinha sido encerrado o caso e não tinha dado em nada. Acho que a falta de responsabilidade não pode ficar impune. O mundo espera isso de nós, para que haja menos fatalidade", afirmou.

Para ela, o filho poderia ter se curado, não fosse a ineficácia do medicamento. "Evidente que ele morreu por causa da falha no início do tratamento. Conheço outra mãe aqui que teve uma filha com o mesmo quadro do meu filho, um tempo depois. Ela não tomou aqueles lotes. Hoje, a menina está firme, forte, feliz. Do meu filho, tiraram a chance de tudo isso." / T.F.

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