Maior reunião da história tem dia tumultuado

À espera de credenciamento, milhares ficaram de fora do centro de convenções por mais de sete horas

Lisandra Paraguassú e Andrei Netto, ENVIADOS ESPECIAIS, COPENHAGUE, O Estadao de S.Paulo

15 Dezembro 2009 | 00h00

A segunda e última semana da Conferência do Clima em Copenhague - o maior evento diplomático da história, com mais de 45 mil inscritos -, começou com uma impressionante demonstração de desorganização. Mais de 10 mil pessoas ficaram presas por mais de sete horas, em temperaturas abaixo de zero, do lado de fora do Bella Center, o centro de convenções onde ocorre a reunião, à espera de autorização para entrar no prédio e receber credenciais. A metade delas não conseguiu passar do portão e foi mandada embora sem chances de participar da semana decisiva de um encontro que vem sendo preparado há um ano, apenas com a instrução de "voltar outro dia".

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Nenhuma explicação foi dada pela organização - no site do encontro, a confusão foi solenemente ignorada. Segundo seguranças, a multidão "surpreendeu", apesar de todos os que foram ao local ontem estarem pré-credenciados. No lugar onde as credenciais deveriam ser feitas, havia apenas cerca de 20 atendentes para milhares de candidatos ao pedaço de plástico que daria direito a entrar na conferência.

Kit Yau, vice-presidente assistente da empresa de reflorestamento chinês Sino-Forest, chegou às 7h15 ao Bella Center. Só conseguiu sua credencial às 14 horas. "Não vi nada parecido nem em países famosos pela desorganização. Tivemos de esperar no frio, na neve, sem banheiro, sem água. É inacreditável."

Ineke van Bijssum, oficial de comunicação do programa de pesquisa holandês Conhecimento para o Clima, chegou na mesma hora e também levou sete horas para entrar. O presidente da sua organização, que chegara uma hora depois, desistiu ao saber que não deixariam mais ninguém entrar e voltou para a Holanda sem pôr os pés no Bella Center. "Tínhamos eventos marcados com a participação dele e vamos ter de cancelar. É a primeira vez que vejo algo mal planejado desse jeito. Como eles não sabiam quantas pessoas esperar? Que tipo de organização é essa?"

Não foram meros jornalistas ou representantes de ONGs os presos na fila. Um ministro da Turquia e uma das palestrantes ficaram horas à espera até serem descobertos e passados à frente.

Apesar da revolta dos que esperavam, que cobravam explicações aos gritos - ou pelo menos o direito de ir ao banheiro -, ninguém da organização apareceu. Coube aos seguranças tentar dar informações que simplesmente não existiam.

O fotógrafo Ed Ferreira, do Estado, esperou por seis horas até ser informado que ninguém mais entraria. A repórter do Estado só foi autorizada a entrar depois de informar a um segurança que estava grávida e de pé há mais de três horas. Mesmo assim, ficou no frio por mais duas horas até ser admitida em uma sala onde ficam os detectores de metal. Ali, mais duas horas até obter a credencial.

A situação foi agravada pelo fato de que pelo menos metade dos pré-credenciados ter chegado a Copenhague no último final de semana, para a semana decisiva e a vinda dos chefes de Estado. Apesar de saber disso, a organização não abriu o setor de credenciamento no domingo. Todos os que chegaram deram com a cara na porta. A organização admitiu ter credenciado 45 mil pessoas, 30 mil a mais do que caberiam confortavelmente dentro do Bella Center.

EVENTO GIGANTESCO

A COP-15 é o maior evento diplomático da história. Além dos mais de 110 chefes de Estado e de governo que chegarão a Copenhague a partir da noite de hoje, até o meio-dia mais de 45,2 mil participantes estavam inscritos. Destes, 11,5 mil são delegados e 22,7 mil, observadores, a maior parte formada por militantes de organizações não governamentais (ONGs) ambientalistas, de acordo com dados oficiais divulgados ontem pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Há ainda 3,4 mil jornalistas credenciados para cobrir as centenas de reuniões diárias, além de um staff de mais de 7,4 mil funcionários.

Do total, 22 mil passes de entrada haviam sido ativados até o final da manhã. O número de credenciados fez implodir a capacidade de organização do Bella Center, cuja capacidade se limita a 15 mil visitantes.

A incoerência dos organizadores, que aceitaram três vezes mais visitantes do que poderiam, custou caro às ONGs: além das filas de ingresso, que se estenderam pelo dia inteiro, apenas mil dos ambientalistas inscritos terão o direito de ingressar renovado.

"Há um certo desafio logístico a ser enfrentado", afirmou Alex Wuestenhagen, coordenador de mídia e logística do evento, deixando transparecer constrangimento. "Também estamos apelando ao bom senso das delegações e pedindo que reduzam o número de pessoas que vêm ao Bella Center."

A MAGNITUDE DA COP-15

45,2 mil participantes se inscreveram para a COP-15

22,5 mil deles são

observadores, a grande maioria ligada a ONGs ambientalistas

11,5 mil são

delegados e 3,4 mil, jornalistas. O staff é de 7,4 mil funcionários

110 chefes de Estado

e de governo são esperados

DEBATE

Ban Ki-moon

Secretário-geral da ONU

"Se deixamos tudo para os líderes resolverem no último minuto, corremos o risco de aprovar um acordo fraco ou ficarmos sem acordo"

"Alguns asseguram que não há confirmação científica. Estão errados. A ciência é clara e firme. A mudança climática é real e nós somos os principais causadores"

Kamel Djemouai

Presidente do grupo

dos países africanos

"Se aceitarmos esta situação, assinaremos a morte de Kyoto, o único documento legalmente vinculante que existe"

Jeremy Hobbs

Da ONG Oxfam

"A África deu o sinal de alerta para evitar que o trem se acidente no final de semana"

He Yafei

Vice-ministro de Relações Exteriores da China

"Sei que alguns dirão que é culpa da China se não há acordo. É uma armadilha dos países desenvolvidos. Que assumam suas próprias posições sem usar a China como pretexto"

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