Maioria das famílias vive com menos de 1 salário per capita

Apesar de melhoria na última década, uma em cada sete residências vivia com até 1/4 de salário mínimo per capita

Wilson Tosta e Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

No País retratado em 2010 pelo IBGE, a maioria da população (60,7%) vivia em domicílios com renda familiar per capita de menos de um salário mínimo (no valor de R$ 510 na época), apesar de em dez anos ter diminuído o número de famílias nos extratos mais baixos de rendimento.

No ano passado, praticamente uma em cada sete residências tinha renda domiciliar per capita de até 1/4 de salário mínimo; uma em cada três, de meio a um; e mais de uma em duas tinha rendimento por pessoa de até um salário mínimo -em todos esses grupos sociais, porém, esses números significaram melhoria em relação à década anterior.

O instituto constatou que, após a faixa de um a dois salários, os resultados dos dois últimos censos se aproximaram, até convergir nos grupos depois de três a cinco salários - a antiga classe média, que ficou onde estava.

O aumento do salário mínimo na década - reajuste de 237,7% para uma inflação (pelo IPCA) de 89% - e os programas sociais são apontados como causas da melhoria de renda dos mais pobres ocorrida no período.

Desigualdade. Segundo o presidente do IBGE, Eduardo Nunes, os dados apontam para uma redução da desigualdade de renda. "O contingente brasileiro que em 2000 ganhava renda inferior a meio salário mínimo hoje é muito menor", disse Nunes. Ele citou programas de transferência de renda e o aumento real do salário mínimo entre as principais causas da mudança.

Nunes explica que as faixas consideradas prioritárias pelo Bolsa-Família são próximas àquela que o IBGE usa como critério para a distribuição de renda: 1/4 do salário mínimo. Ele também destacou a expansão da economia na última década, com a criação de mais de 10 milhões de postos de trabalho.

Falhas. O avanço na renda dos mais pobres não foi acompanhado no mesmo ritmo - ou pelo menos em padrão semelhante - por outros indicadores sociais.

O País reduziu a sua proporção de analfabetos com 15 anos ou mais na década de 91-2000 (de 20,1% para 13,6%) do que entre os anos 2001 e 2010 (13,6% para 9,6%). A redução nessa velocidade é encarada com naturalidade por especialistas, que ressaltam o aumento da dificuldade em combater o analfabetismo, na medida em que o estoque de analfabetos diminui, concentrando-se em centros menos urbanizados e mais pobres.

A Região Nordeste é aquela com maior taxa de analfabetismo: 19,1% em 2010, contra 28,2% em 2000 e impressionantes 37,6% em 1991. Entre os nordestinos, em 2010, 47,1% dos analfabetos tinham 60 anos ou mais.

Também avançou em ritmo modesto o porcentual de domicílios particulares ligados a rede de esgoto ou fossa séptica - de 62,2% para 67,1%, apenas 4,9 pontos porcentuais em dez anos. Isso significa que, no ano passado, 32,9% das residências lançava seus dejetos sanitários diretamente e sem tratamento na rua ou no meio ambiente.

Trabalho infantil. O Censo 2010 mostra ainda que no ano passado havia 132 mil domicílios no País sustentados pelo trabalho feito por crianças de 10 a 14 anos. "Proporcionalmente aos 57 milhões de domicílios, esse número (132 mil) não é muito expressivo. Entretanto, ele reflete outra realidade que o IBGE revela sistematicamente: a presença de trabalho infantil na sociedade", diz Nunes.

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