'Make no little plans'

Duas vezes prefeito de São Paulo, Prestes Maia revolucionou a estética urbana da cidade

17 Setembro 2012 | 17h32

O urbanista Francisco Prestes Maia nasceu em Amparo em 1896 e faleceu em São Paulo em 1965. Formou-se engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica de São Paulo. Em 1918, foi nomeado engenheiro da Secretaria de Viação e Obras Públicas - DOP, da qual viria a se tornar diretor.

Contratado como professor da Politécnica, lecionava desenho arquitetônico, desenho geométrico e perspectiva, cujo titular era o arquiteto Victor Dubugras (1868-1933). Notabilizou-se como exímio desenhista e aquarelista, fato que lhe permitiu, já como profissional, dotar suas concepções urbanísticas com ilustrações caracterizadas por seu alto poder de elucidação. Passou para a história como o mais notável urbanista de São Paulo em sua época. Seus ex-alunos e pessoas que com ele conviveram descrevem-no como taciturno, de poucas palavras e uma invulgar capacidade de trabalho.

A Escola Politécnica não contava com a cadeira de Urbanismo à época em que Prestes Maia ali estudou. Tal fato pode explicar a voracidade desse bibliófilo, que constituiu uma das melhores bibliotecas especializadas de que se tem notícia, hoje integrante da Biblioteca Prefeito Prestes Maia, em Santo Amaro. Nessa perspectiva, seria um “urbanista autodidata”.

Prestes Maia encontrou em João Florence de Ulhôa Cintra um colega que compartilhava da mesma convicção: era necessário, urgentemente, um plano para disciplinar a cidade e seu crescimento e reordenar a área central. Trabalharam juntos nessa proposta e passaram a pregar seus princípios com tal empenho que aos poucos foram ganhando ouvintes atentos. Expuseram suas ideias aos vereadores e publicaram-nas, parcialmente, no Boletim do Instituto de Engenharia. Seguiu-se a elaboração de um trabalho que passou para a história como o Plano de Avenidas, merecendo um prêmio no Instituto de Engenharia do Rio de Janeiro. Em 1930 estava amadurecida a obra, editada com o título Estudo de um Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo, o mais completo trabalho no gênero até então surgido entre nós.

A cidade deixava a era dos “planos de melhoramentos e embelezamento” para dispor de um trabalho que viria, sem favor, se colocar entre os melhores no plano internacional. A estética urbana é tratada em termos de perspectivas monumentais. Foi uma contribuição eloquente desse professor da Escola Politécnica à divulgação de suas propostas.

Em 1938 foi nomeado prefeito pelo interventor Adhemar Pereira de Barros (1901-1969), cargo em que permaneceu até 1945, quando pôde executar as propostas previstas em seu Plano de Avenidas, que tão aprofundadamente estudara, entre elas o famoso Sistema Y, formado pelas avenidas Nove de Julho, Vinte e Três de Maio e Radial Norte, hoje conhecida como Avenida Prestes Maia, privilégio reservado a poucos urbanistas.

O Plano de Avenidas contou com abrangência bem mais ampla do que o nome parece sugerir. A cidade, sendo um organismo complexo, as intervenções que nele ocorreram implicaram transformações extensas. O plano constituiu um marco no urbanismo brasileiro.

Na abertura de seu Plano de Avenidas, enfatizou o princípio de Burnham: “Make no little plans”, ou seja: "Não façam planos acanhados. Eles não têm magia para mover os homens e provavelmente nunca serão realizados. Façam planos grandiosos. Almejem o alto na esperança e no trabalho, lembrando que um diagrama lógico, uma vez registrado, nunca morrerá mas, muito depois de termos partido, permanecerá como um elemento vivo, afirmando-se sempre com crescente insistência. Lembrem-se de que nossos filhos e netos farão coisas que nos surpreenderão. Façam o seu lema ser Ordem e seu guia Beleza.”

Entre outubro de 1924 e junho de 1926, o Boletim do Instituto de Engenharia publicou uma série de artigos com o título Os Grandes Melhoramentos de São Paulo. Seus autores, Francisco Prestes Maia e João Florence de Ulhôa Cintra, elaboraram esse trabalho “apenas como programa de estudo”, informam tê-lo posteriormente apresentado à Câmara Municipal e “como interessou a muitas pessoas, publicamo-la.”

Na série de artigos publicados no Boletim do Instituto de Engenharia, ao se referir às diretrizes gerais de um plano, Prestes Maia afirmava: “Fixar essas grandes linhas mestras é o principal dever, e o mais elementar, das administrações municipais – e fixá-los corajosamente, com visão ampla e segura, olhos fitos no futuro.”

Modesta justificativa para apresentar um trabalho cujo desdobramento seria o início de uma nova era no planejamento urbano de São Paulo, que naquele momento passava por uma “verdadeira crise de crescimento”, como vai registrado no primeiro parágrafo, que conclui com um tom profético: “São Paulo marcha com passo mais rápido que o normal, e de tal modo se vai distanciando das suas congêneres deste e dos outros continentes, que não pode subsistir dúvida que ela está em uma fase decisiva da sua existência: a da sua passagem para o rol das grandes metrópoles.”

A gestão de Prestes Maia coincide com a Segunda Guerra Mundial. Tempos difíceis e que, no entanto, foram marcados pelas mais extensas transformações que a cidade conheceu. Essa administração foi precedida pela de Fábio Prado e foi caracterizada por grande operosidade, como justamente reconhece o próprio Prestes Maia.

Somadas as duas gestões (Fábio Prado e Prestes Maia), temos outro longo período de onze anos (1934-1945), durante o qual São Paulo conheceu intervenções de grande significado.

Prestes Maia foi um pregador de doutrinas urbanísticas, administrador rigoroso, cujo devotamento à sua profissão e à sua cidade fizeram-no um símbolo de cidadão e de profissional de superiores qualidades. Se não pôde realizar tudo o que desejara, deixou diretrizes seguras para seus sucessores.

Ao concluir seu primeiro mandato como prefeito de São Paulo, o engenheiro-arquiteto Francisco Prestes Maia despediu-se de seus colaboradores. Ao deixar o edifício-sede da Prefeitura, o motorista do carro oficial abriu-lhe a porta, como de hábito. Exclamou Prestes Maia: “Não Senhor, obrigado. Agora não sou mais prefeito”. Despediu-se e subiu a pé a Rua Líbero Badaró, onde ficava seu gabinete, cruzou o Viaduto do Chá e foi até a Rua da Consolação. onde tomou um bonde rumo à sua residência.

Em 1957, Francisco Prestes Maia concorreu mais uma vez à Prefeitura, sendo derrotado. Novamente candidato em 1961, foi eleito para uma segunda gestão (1961-65). Nessa ocasião, retomou o projeto do metropolitano que elaborara em 1956. Foi sucedido por Faria Lima, que revelou grande respeito pelos projetos de seu antecessor e cuja preocupação foi dar sequência às obras por ele iniciadas. Os conceitos urbanísticos, as propostas e as prioridades de Prestes Maia constituem objeto de estudo entre os pesquisadores e revelam permanente interesse.

Benedito Lima de Toledo, professor titular de História da Arquitetura da FAU USP, é autor de vários livros sobre a cidade de São Paulo, entre eles Prestes Maia e as Origens do Urbanismo Moderno em São Paulo.

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