Mala branca

Nas décadas de 70 e 80, Jacinto Figueira Júnior tornou-se célebre com um programa de entrevistas e matérias na linha mundo-cão, que tinha o curioso nome de "O Homem do Sapato Branco". Jacinto, diga-se de passagem, fazia questão de apresentar o programa calçando pavorosos sapatos brancos, que desfilava em passos lentos e um tanto trôpegos já na vinheta de abertura. O nome do programa acabou se transformando na alcunha do polêmico apresentador. E já que é de polêmica que falamos, não posso evitar o assunto que do momento no Campeonato Brasileiro. Um programa que envolve outro homem e outro acessório de couro: "O Homem da Mala Branca".

MARCOS CAETANO, marcos.caetano@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Foi Val Baiano, do Barueri, quem lançou em grande estilo o novo programa, ao confirmar e depois desmentir que, sim, ele e seus companheiros de elenco haviam recebido uma ajudinha extra em troca de uma dedicação igualmente extra para bater o Flamengo. A mala branca teria vindo de um time azul, o Cruzeiro, que disputa com o Rubro-Negro uma vaga na Libertadores de 2010 e o sonho do título. A sinceridade do jogador do Barueri destoa da voz corrente porque o comum é ver dirigentes, técnicos e jogadores jurando que jamais aceitarão incentivos adicionais para cumprir o dever de dar o máximo durante todas as partidas. Entretanto, cá entre nós, alguém acha mesmo que não existem acertos de bastidores, financeiros ou não, entre as agremiações envolvidas nas disputas do futebol?

Vou destoar da opinião corrente na mídia esportiva, mas preciso dizer que não acho absurdo um jogador receber incentivo extra para ganhar uma partida. Se é verdade que o salário do jogador é suficiente como recompensa pelas vitórias, o que dizer do bicho, que existe desde meados do século passado? O bicho é ou não é um incentivo extra? É claro que é. Assim como são incentivos extras os bônus que os executivos recebem ? além dos salários ? para atingirem suas metas. Assim como é incentivo extra o dinheiro que a CBF e todas as federações de futebol do mundo pagam aos seus jogadores em caso de conquista de uma Copa do Mundo, apesar de estarem todos defendendo a honra e as cores de seu país. Até entendo alguém que pregue a pureza do amadorismo no esporte, ainda que isso seja utópico num esporte que é profissional. Mas não entendo por que considerar incentivos extras como algo antiesportivo.

Nessas horas, os clubes que brigam por algo deveriam pensar em fazer a sua parte, em vencer seus jogos, ao invés de acionar o Ministério Público. A filosofia dos clubes deveria ser dar o máximo para ganhar dos rivais, não importa o tamanho do incentivo que eles possam vir a receber. O Flamengo, por exemplo, foi para Barueri achando que ia jogar na Rua Bariri, onde fica o campo do Olaria. Atuou sem vibração, sem alma. Deu no que deu. O Flamengo perdeu do Flamengo e do bom time do Barueri ? e não da mala branca do Cruzeiro. Acho abominável um jogador receber dinheiro para entregar um jogo, mas não necessariamente condeno quem recebe um incentivo para ganhar. Aliás, deve ter muito amante do futebol por aí que toparia pagar uns caraminguás, até sem interesse específico, apenas para ter certeza de que veria jogos de melhor nível.

Deixando as provocações de lado, uma última observação: se é eticamente questionável o apoio financeiro para um time fazer nada mais do que seu dever nas partidas, o que dizer dos times que dão férias aos principais jogadores antes do final da temporada? Para mim, isso é que é verdadeiramente antiético e capaz de desequilibrar a disputa. Pensem nisso.

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