Malbec com comida indiana

Entrevista com o Homem do Ano da revista Decanter, o argentino Nicolás Catena Zapata

Danilo Nakamura, especial para o Paladar,

13 Maio 2009 | 11h33

O primeiro gesto é um sorriso devastador. Em seguida, um sincero aperto de mão. E mais um sorriso, e outro – até que você se sinta metralhado de simpatia. Muito seguro, o doutor (em economia pela Universidade de Berkeley, Califórnia) Nicolás Catena Zapata não hesita, não tropeça e, muito mais importante, não se vangloria. Há poucas semanas, recebeu o prêmio de "Homem do Ano" pela revista inglesa Decanter (o equivalente a um Hall da Fama dos vinhos) e nem por isso, nem mesmo por isso, este homem – que já virou entidade – é capaz de perder o controle.   Do mais simples Chardonnay ao mais complexo Malbec, poucos são os vinhos argentinos que não estudaram em sua "escola", ou o tiveram como referência, nas últimas décadas, e ainda assim, há uma serena humildade em seu semblante, temperada por um treinado comportamento público (chama o repórter de "Senhor" o tempo inteiro, como um cavalheiro ultraformal).   Com os óculos (também discretos) ora na mão, ora vestidos, sentou-se à mesa e pediu permissão para que seu mais novo enólogo, o engenheiro químico e agrônomo Alejandro Vigil (que ele carinhosamente chama de ‘meu novo neto’), nos acompanhasse na entrevista, em caso de perguntas mais técnicas. Com o primeiro, e muito preciso, Catena Chardonnay começamos.   Sobre o prêmio... Fiquei surpreso. Por que dar o prêmio a um novato? Ainda mais vindo dos britânicos, que até então eram famosos por só respeitarem os vinhos franceses. Minha visão é de que  finalmente estão dando o devido respeito a uma nova região. Parece-me que após meros 20 anos conseguimos colocar nossos vinhos ao lado dos grandes europeus. Repito: estou surpreso.   Se o senhor pudesse repassar este prêmio a algum nome sul americano, a quem seria? Veja bem, essa é uma pergunta delicada. Preciso pensar... há muitos produtores estrangeiros em Mendoza e tenho que ter muito cuidado com esse assunto.   Posso responder depois? (riu, meio sem graça, quase pedindo ajuda com os olhos ao enólogo, igualmente desconcertado por ter que abraçar a causa).   Claro que pode! Mas isso não é uma pergunta exatamente técnica para se recorrer a um enólogo... Com o prêmio, o senhor acha que há uma tendência dos preços subirem? Isso não é comum na Argentina. Há dois anos, os argentinos tentaram subir os preços dos vinhos, mas aí veio a crise e... não, não vão subir. Óbvio, existe uma possibilidade. Explico-me: qualidade não é um adjetivo muito preciso. O único indicador de qualidade hoje são os críticos e, por vir da crítica, é possível que o prêmio tenha certa influência no preço de loja, mas não que isso vá ser uma política das vinícolas. Mendoza é tradicional por sua relação preço-qualidade. Na minha opinião, é o melhor lugar do mundo nesta equação entre o que está na garrafa e o quanto custa. E não podemos perder este título.   Vou contar um segredo (dá um sorriso maroto): sempre fiz questão de colocar melhores vinhos na garrafa que o que aquelas faixas de preço me permitiam. Foi uma estratégia, criou confiança e acaba por ser lucrativo entregar mais que o pedido...   E o senhor tem afinidade com a opinião dos críticos? E como! Principalmente com a crítica americana. Temos a mesma inspiração, Napa e Sonoma, e de alguma maneira a mesma aspiração, Bordeaux. Há alguns anos venho provando meus vinhos às cegas, e invariavelmente tenho a mesma opinião de Robert Parker. Não pode ser coincidência!   Qual sua opinião sobre as bodegas old-school argentinas, como Lopez e Weinert? É um gosto do passado, que eu particularmente gosto... tipo Jerez, sabe? Quando eu comecei a produzir vinhos, era este o gosto dos argentinos, sabores oxidados pelo tempo. Tanto que fiquei com medo de lançar meus vinhos com o suposto "novo sabor", mas pelo visto houve muita aceitação, tanto do consumidor quanto das vinícolas, que começaram a produzir vinhos na mesma linha. As únicas remanescentes do estilo antigo são realmente Weinert e Lopez.   Seria uma questão de moda, então, de um estilo vigente? Bem, pelo menos no velho mundo, é um estilo vigente há mais de cem anos!    ***  Ele propôs que continuássemos a conversa durante o almoço, para os vinhos serem provados, e aquela pergunta sobre a pessoa a ser premiada ficou no ar. Daí em diante, acabou a tensão. Sem protocolos, degustamos tudo num tom confessional... Catena é sincero, pelo menos parece ser. O primeiro vinho, um Catena Alta Chardonnay, tão seguro quanto seu dono, impecável na madeira, sutil na acidez e untuoso na boca, macio, amanteigado. "Compare este com um Chardonnay do Napa na mesma faixa de preço", ele intimou, "não há nada como Mendoza. Talvez não sejamos melhores, mas o que foi nossa referência, hoje é concorrência.".   Antes que provássemos o vinho seguinte, Catena Alta Malbec, o senhor Catena  interrompeu "Espera, vou te contar uma coisa. Quem gosta de Malbec é aquele ali", apontando para o senhor Vigil, o enólogo, "eu gosto é de Cabernet! Sonho com um Cabernet top, de vinhas mais altas e velhas. Na minha confraria, o Catena Alta Cabernet é unanimidade. Vai bem até com espaguete alho e óleo!".   Já que o assunto é harmonização, o que gosta com Malbec? Comida indiana! Juro, a primeira a descobrir isso foi minha mulher e eu duvidei. Hoje é um clássico da família Catena. Só não pode abusar no curry.   E este novo vinho, o Malbec Argentino (um supermalbec criado para ser o top de todos os tops e com uma única safra produzida até agora)? A nova safra sai em 20 dias. É uma busca por um novo estilo. São uvas de três vinhedos diferentes. Pode-se dizer que é uma tentativa de algo novo, como foi em 1990 a outra linha. Mas ele não é um sonho, e sim uma perseguição.   O senhor nunca quis um Pinot Noir top? Sou a ovelha negra da família, fã de Cabernet. Mas minha filha sonha, meu filho ama, e o Alejandro vive me cutucando. Eu, como bom pai italiano, costumo priorizar o sucesso dos filhos. Tenho concentrado minhas forças para que a Laura [Catena, a filha] faça o Pinot desejado. Mas, vá lá, o Pinot dela é ótimo!   ***   Já estávamos no último vinho, Nicolas Catena Zapata (o blend pessoal e top da vinícola), quando Dr. Catena pegou o caderninho do repórter e começou a desenhar um gráfico ininteligível sobre a polimerização das uvas em Mendoza, explicando como a Argentina é o único país a produzir vinhos muito jovens com potência, muito aroma e ainda assim, taninos doces e macios.  Momento para perguntar o que ele queria dizer com ‘muito jovem’. "O que pode ser mais jovem que 2009 - por sinal, a melhor safra argentina da história, na minha opinião? É isso."   Por fim, o senhor pensou em alguém para dar o prêmio? Como se não quisesse falar alto, o doutor Catena escreveu no caderninho "Clos de los Siete", confessando: "o futuro da Argentina está nas mãos desse pessoal que trabalha duro sob a batuta de Michel Rolland... ele é brilhante!".

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