Manoel de Barros, por trás da poesia

Documentário de Pedro Cezar reproduz o mundo particular do grande poeta

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

25 de janeiro de 2010 | 00h00

Firme em seu propósito de realizar um documentário sobre Manoel de Barros, o cineasta e músico Pedro Cezar cercou o poeta em sua cidade, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, inundando-o com os mais diversos motivos. Manoel, no entanto, notório pela reclusão, respondeu carinhosamente com idêntico número de recusas. Depois de muita negativa, Cezar descobriu a senha justamente ao entregar os pontos - quando ouviu do jovem cineasta que aquela entrevista não passaria de um sonho mesmo, Manoel fitou-o nos olhos e deu o veredicto: "Volte aqui amanhã bem cedo com seu material de filmagem".

O resultado, o documentário Só Dez Por Cento é Mentira, em cartaz em São Paulo, é uma delicada declaração de amor a um poeta que cultiva as palavras como poucos. Aos 93 anos e prestes a lançar o que pretende ser seu derradeiro livro pela editora Leya Brasil, Manoel de Barros é conhecido pela linguagem artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade. E, para ilustrar uma escrita fora do padrão, Cezar acertou ao construir um documentário também raro, em que depoimentos de pessoas conhecidas como Joel Pizzini e Bianca Ramoneda misturam-se com aquelas cuja importância é a de inspirar o poeta. Sobre o assunto, Cezar respondeu as seguintes perguntas.

O que mais te atrai na poesia de Manoel?

Manoel sempre olha a vida do ponto de vista do horizonte. E como não bastasse "transver" o mundo em seus poemas, ele ainda produz versos numa linguagem absolutamente original e simples. Lembremos que o simples é o oposto do fácil. Outra coisa: Manoel sabe muito de síntese. Produz encantos sem ser palavroso. E assim temos sempre o prazer de concluir seus livros, que são curtos e fincam. Isso numa época em que não conseguimos dar ponto final em nada. Ele é um prato cheio para os tuíteiros de bom gosto. "O branco deve muito de sua elegância às garças", "A morte é indestrutível", "Andando devagar eu atraso o fim do dia"... Todos esses versos têm bem menos que 140 caracteres.

Sempre se comenta que o Manoel revelado pela poesia é uma pessoa e o Manoel poeta é outra totalmente diferente. Você notou essa diferença também?

Diria que o "ser letral" (o Manoel por escrito) inventa e reconstrói o ser biológico Manoel. Os versos que ele faz no papel ornam a "ruína" que ele diz ser em carne e osso. Depois de ler "ontem choveu no futuro" ou "nossa maçã come Eva", fica difícil segurar nossa onda; fica difícil separar pessoa física de pessoa jurídica. E o mais engraçado é que ele pessoalmente é muito carismático e atencioso. Se ele fosse um pouquinho menos brilhante e menos legal ajudaria um pouco.

Qual a principal dificuldade para levar a poesia dele para o roteiro?

Tem muita coisa no idioleto "manoelês" que não é adaptável. Versos altamente sedutores do ponto de vista imagético mas intraduzíveis visualmente. Só nos resta colocar a frase ipsis litteris na tela e contemplar. "Palavras são imagens que nos faltaram", ele nos ensina. "Ontem choveu no futuro." Como adaptá-la visualmente? Mas é necessário filmá-la? Uma frase do Manoel em fundo preto com tipografia decente numa sala escura pode ser altamente cinematográfica. Não é ele que diz "as antíteses congraçam"?

E como ele se comportou na filmagem? Aliás, ele chegou a ver o documentário?

Ele mostrou que é mesmo um "desherói". Aguentou firme essa espécie de invasão que um objeto de registro provoca na alma e se manteve espontâneo na medida do possível. Eu sabia que estava invadindo a sua filosofia que prega "a palavra oral não dá rascunho" e também conhecia suas entrevistas por escrito, que realmente são peças literárias insuperáveis. Sabia dos limites de uma entrevista com câmera ligada mas acreditava que seria importante gravar suas reflexões poéticas ao vivo. Depois soube por sua esposa que ele até teve que tomar remédio para não gaguejar de nervosismo.

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