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Maquiagem de preços e produtos indisponíveis são principais queixas na Black Friday

Procon-SP já recebeu mais de 900 denúncias sobre práticas lesivas ao consumidor nesta edição da Black Friday brasileira

Anna Carolina Papp e Flavia Alemi, O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2015 | 12h36

Atualizado às 21h14

SÃO PAULO - A piada de que os descontos da Black Friday seguem o slogan 'tudo pela metade do dobro' chega ao seu quinto aniversário no Brasil. Neste ano, a principal reclamação dos consumidores foi, mais uma vez, a maquiagem de preços e descontos, além da venda de produtos indisponíveis no estoque. Até às 18h desta sexta, a Fundação Procon de São Paulo recebeu 973 queixas, a maioria sobre lojas que aumentam os valores dos produtos pouco antes de anunciar a promoção.

A prática já havia sido observada nas edições anteriores da Black Friday, o que vem deixando os consumidores mais atentos a cada ano. A servidora pública Graziella Zaidem, por exemplo, vinha pesquisando o preço do celular Z3 Compact, da Sony, no site Americanas.com durante o último mês para ver se valeria a pena usar os descontos. "O preço médio dele sempre ficou em torno de R$ 1.059,00, com frete de R$ 9,90. Na sexta, o site anunciava que o preço tinha caído de quase R$ 2.000,00 para os mesmos R$ 1.059,00", relata. A Americanas.com informa que o smartphone da Sony é um produto vendido por meio do Marketplace, que não faz parte da Black Friday da loja e cujo preço é estabelecido pelo parceiro.

No caso do editor-chefe do site Videogames Brasil, Átila Graef, o slogan de 'tudo pela metade do dobro' foi aplicado à risca na Americanas.com. O jogo Metal Gear Solid V para PlayStation 4 foi lançado com preço-base de R$ 199 no Brasil, mas na "oferta" de 50% de desconto aparecia que o preço anterior era de R$ 399 e o atual era R$ 196,86. "Nunca custou R$ 399. Esse desconto não existe. Mais uma loja achando que consumidor é trouxa?", questiona. Menos de meia hora após postar uma reclamação no Facebook, a oferta foi "ajustada" e o preço caiu para R$ 189,90. 

O desenhista projetista Paulo de Queiroz Markoski queria comprar um teclado gamer mecânico há algum tempo, mas decidiu esperar chegar a Black Friday para ver se conseguiria um preço mais interessante. Ao navegar pela página KaBuM!, site especializado em vender eletrônicos, encontrou o que precisava por R$ 279,90. Ao clicar, porém, veio a decepção: o preço havia mudado para R$ 470,47.

"Pensei que o desconto seria aplicado no final da compra, mas mesmo no fim do processo aparecia o preço mais caro", explica. Em conversa com o atendimento via chat do KaBuM!, Markoski foi informado de que a oferta não estava ativa para o teclado, o que foi desmentido com uma captura de tela da promoção.

Desde setembro, o programador Emerson Marques Pedro, de 29 anos, vem monitorando os preços de um aspirador de pó da Electrolux que gostaria de comprar. "Há dois meses, estava por R$ 80 no Magazine Luiza, onde encontrei mais barato", afirmou. Desempregado desde janeiro, o mestrando decidiu postergar a compra, na esperança de que o preço baixasse na Black Friday.

Nesta sexta, porém, ao pesquisar o aspirador na mesma loja, encontrou o produto em "promoção" de R$ 299 por R$ 89. "No comparador de preços Buscapé, que dá o histórico de preços dos últimos 30 dias, vi que o aspirador estava R$ 80 no dia 28 de outubro. Depois, o preço subiu e ficava intercalando entre R$104 e $109", explica Pedro. "Esperava que ele voltasse para R$ 80 na Black Friday, mas foi daí para R$ 89."

Como precisava do produto há tempos, Pedro resolveu comprar mesmo assim, porém fez uma queixa no Reclame Aqui e irá fazer outra no Procon. "Quero pelo menos os R$ 9 de volta, não é justo", afirma. O desenvolvedor também publicou uma crítica em seu Facebook, com o gráfico do histórico de preços. "Destaque para o marketing, que chamo, carinhosamente, de estelionato", escreveu ele. Apesar da maquiagem de preços, nem tudo foi decepção: "Comprei uma cadeira para computador de escritório de R$ 1.200 por R$ 400 na Mobly -- e sei que foi promoção mesmo porque pesquisei. Foi um ótimo negócio."

O Magazine Luiza afirma que o item não fazia parte das promoções ofertadas na Black Friday.

Frete. Uma percepção apontada por consumidores está relacionada ao custo de entrega das compras online. O estudante recifense João Paulo Rodrigues se deparou com uma oferta um tanto quanto absurda do site Submarino. "Entrei no site para olhar alguns jogos para computador e me deparei com um de R$ 6. Quando fui ver o frete, era R$ 192,84 para Recife", indigna-se. O preço original sem desconto, de acordo com o site, era R$ 99,90.

O frete é o único item que pode ser informado apenas no final da compra, o que faz com que, na prática, os sites burlem as ferramentas de pesquisa de preços baixos. Por não ter uma diretriz específica em relação a limites de valores, o preço do frete varia de acordo com a localização e dá às empresas vendedoras a opção de escolher o transporte que julgar adequado. 

De acordo com a diretora-executiva da Fundação Procon de São Paulo, Ivete Maria Ribeiro, o custo de entrega faz parte do produto em si. "Não pode ser algo abusivo. O consumidor tem de ficar atento às estratégias que algumas empresas estão usando para lucrar mais", salienta. Ivete recomenda que, ao sentir que os valores de frete ultrapassam os limites razoáveis, o consumidor registre a promoção com um print screen e envie aos órgãos de defesa do consumidor.

De olho nos descontos fraudulentos, os órgãos de defesa do consumidor montaram uma força-tarefa para receber denúncias durante a Black Friday. O Procon-SP, por exemplo, realiza um plantão desde quinta-feira e divulgou uma lista que mostra a evolução de preços de eletrodomésticos, celulares e eletrônicos, remontando até setembro. A Proteste, associação de defesa do consumidor, também divulgou nesta sexta uma lista de preços de itens acompanhados pela entidade nos últimos meses.

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