Máquina limpa cana sem usar água

Família que desenvolveu o equipamento focou a economia de água e a limpeza de cana crua antes da moagem

Brás Henrique, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2009 | 03h09

A preocupação ambiental e a escassez de água, além do desgaste dos pesados maquinários, levou uma família de Ribeirão Preto a projetar um equipamento que pode revolucionar o processo industrial da cana. Trata-se de um processador rotatório de impacto aplicado na limpeza a seco de cana, que substitui a água pouco antes da moagem. O equipamento usa impacto e atrito para retirar a sujeira, composta basicamente por terra e palha. A primeira máquina está sendo fabricada em Cravinhos, região de Ribeirão Preto (SP), e iniciará testes numa usina de pequeno porte na próxima safra, a partir de maio.

 

A máquina limpadora: Milton diz que sacarose não se perde

"Nosso sistema visa o baixo consumo de energia que, em vez de ser consumida, pode ser vendida pela usina", diz o engenheiro mecânico Marcelo Bignelli. Ele, ao lado do pai, Milton, químico industrial e ex-administrador de usinas, e do tio Pedro, dentista e professor da Universidade de São Paulo (USP), desengavetaram o projeto em 2000. Mas Milton já pensava em algo sobre o assunto desde 1956, quando via os desgastes dos equipamentos provocados por impurezas. E o carregamento de cana ainda era manual e nem se usava água para lavar a cana.

Uma usina gasta de 3 mil a 5 mil litros de água por tonelada na lavagem da cana. Por hora, essa moagem pode variar de 50 a 600 toneladas. Mesmo sendo água de reúso e tratada, até usada na irrigação da lavoura, parte dela tem que ser renovada de tempos em tempos. E usar cana suja é inviável na indústria. Algumas usinas buscam alternativas, como uso de ventilação na retirada da sujeira, mas a eficiência ainda não está comprovada. O processador de limpeza a seco é mais uma alternativa.

Pequeno porte

O primeiro equipamento, com 10 metros de comprimento e 4 metros de diâmetro, pesando 70 toneladas, terá capacidade para processar 2 mil toneladas/dia. É de pequeno porte. "A produção é por escala e depende do tamanho da usina, e ainda está sofrendo várias modificações", diz Marcelo. O processador é cilíndrico, com painéis vazados, e ao girar sobre uma base fixa, com hélices em forma de rosca (para manter o fluxo contínuo da cana), deixa a terra e a palha numa esteira, na parte inferior, e um exaustor suga o pó na ala superior.

"Essa terra é boa, um adubo seco que pode ser devolvido à lavoura", diz Milton. A cana fica entre um minuto e um minuto e meio no processador e, atualmente, a quantidade de terra varia de 3% a 6% do peso da cana que sai da lavoura.

Outra vantagem é que pode ser evitada a perda de sacarose dos colmos. A cana queimada passa por lavagem antes da moagem, provocando perda de 2% de sacarose. A cana colhida crua não é lavada, pois aumentaria esse prejuízo de sacarose. A limpeza a seco contornaria o problema. "Com esse equipamento não se usa água e a sacarose fica na cana", diz Milton.

Os Bignelli bancaram R$ 500 mil no desenvolvimento do projeto. O valor comercial do equipamento ainda não foi definido, pois depende de ajustes finais. O invento e o processo de limpeza a seco foram patenteados pelos Bignelli no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

 

Limpeza a seco é tendência

 

A limpeza a seco da cana é uma tendência, já que, em 2014 a queimada em SP será proibida em áreas mecanizáveis. "Teremos que nos adaptar", diz Lázaro Lauriano, da Usina Moema, de Orindiúva (SP), que já colhe 60% da safra com máquinas. E usar água para lavar cana picada é impossível, pois perde-se até 5% de sacarose. Lauriano tem interesse em conhecer o processo de limpeza a seco dos Bignelli. "Além disso, em breve, as colhedoras também deverão ter tecnologia para retirar menos terra no corte."

 

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