Marcas na pedra

Tribos pré-históricas espalharam sua arte pelos paredões do pouco conhecido Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, Patrimônio Cultural da Unesco

Tiago Queiroz, enviado a SÃO RAIMUNDO NONATO,

25 de janeiro de 2011 | 13h00

 

Na próxima oportunidade, quando pensar em fazer algum roteiro pelo Nordeste, esqueça por um momento os óbvios destinos com praias e coqueiros. A região tem belas faixas de areia, inegavelmente, mas não apenas isso. Tente se lembrar de um lugar dominado pela caatinga, bioma ímpar, e coberto de pinturas deixadas por nossos ancestrais, 12 mil anos atrás. Agarre a chance de entrar em contato com um Brasil profundo, de um povo simples, de olhar sincero.

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E siga para o Parque Nacional da Serra da Capivara, no sudeste do Piauí, a 517 quilômetros de Teresina e a 380 de Petrolina, já em Pernambuco. A maior reserva arqueológica a céu aberto do mundo tem 1.200 sítios catalogados, 172 abertos à visitação.

 

Riqueza suficiente para garantir um lugar na lista de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco.

Pela distância e pela condição das estradas, vale começar a viagem em Petrolina. Dali, são cerca de cinco horas para chegar à cidade com melhor infraestrutura no entorno da reserva, São Raimundo Nonato.

 

Nos 400 quilômetros de estrada, a bela paisagem do semiárido. Casas de pau a pique e cáctus de vários formatos: coroa-de-frade, rabo-de-raposa, xique-xique e palma, que serve de alimento ao gado. Além de bromélias coloridas e das copas de angico, aroeira, juazeiro e imburama-de-cheiro. A noite nessa região tem milhares de estrelas no céu e flores brancas adornando os mandacarus. Algo que você precisa ver, nem que seja uma vez na vida.

 

A viagem é tranquila, mas exige espírito de aventura. É essencial levar água, de preferência em isopor, pois o calor é forte e quase não há pontos de parada. Siga pela BR-407 até o Posto Fiscal, logo após a divisa dos dois Estados, depois pegue a PI-465 até a BR-20, que cruza o parque. Certifique-se das condições do veículo e evite rodar à noite.

 

Apesar das dificuldades, o trajeto recompensa. Você vai ver passar cidadezinhas isoladas com suas casas coloridas e nomes singulares como Campo Alegre do Fidalgo, Lagoa do Barro do Piauí, Queimada Nova, Arizona e Afrânio. Nesta, se der, faça um pit stop rápido. Corra para o posto de gasolina na beira da estrada e peça na lanchonete um copinho de doce de leite - a cidade se orgulha de ter o melhor da região. Vai custar R$ 1 e você seguirá muito mais feliz.

 

 

 

 

Com guia. Passando de São Raimundo Nonato serão mais 20 quilômetros de estrada até o parque, que tem 130 mil hectares e relevo único, formado há cerca de 240 milhões de anos. São cânions, paredões de pedra e chapadas pontilhados pela vegetação típica da caatinga, onde a quantidade e a variedade de cáctus parece triplicar. De maio a outubro, praticamente não chove, o que realça a paisagem sem igual das grandes rochas esculpidas pelo vento. E favorece a visita aos sítios arqueológicos.

 

As diversas civilizações de homens pré-históricos foram mesmo generosas em espalhar sua arte pelos paredões de pedra. São incontáveis desenhos, feitos em sua maioria com óxido de ferro, uma substância vermelha encontrada nas rochas e que servia de tinta para esses artistas. As cenas mostram caçadas, figuras de animais como o veado galheiro, espécie presente apenas em locais com abundância de água. Esse fato comprova a grande mudança climática da região no decorrer dos milênios.

 

O parque tem estrutura que contempla tanto aventureiros quanto viajantes com pouco preparo físico - vale lembrar que 30 desses sítios são acessíveis aos deficientes físicos. Em algumas regiões é possível circular com carro, descendo aqui e ali para observar os sítios que ficam mais próximos da estrada principal da reserva. Mas também há outras áreas aonde só se chega após caminhadas de até 8 quilômetros em meio à caatinga.

Não importa aonde vá, o turista precisa de um guia credenciado, normalmente gente nascida e criada nos arredores do parque. Cada guia é responsável por até dez pessoas e cobra R$ 75 por grupo, quantia que não inclui os R$ 10 para entrar na reserva.

 

Museu. Mas o parque não é pródigo apenas em riquezas naturais. O Museu do Homem Americano, por exemplo, conta a história das descobertas feitas na Serra da Capivara com tecnologia e instalações para lá de modernas. Há crânios e esqueletos em urnas funerárias, ferramentas líticas que mais parecem joias e uma tela de cinema que mostra desenhos rupestres - destaque para a boa trilha sonora.

 

Quando a fome bater, vá ao povoado vizinho de Sítio do Mocó, onde está o Camping da Pedra Furada. Você vai comer deliciosos pratos à base de carne de sol, frango ou carneiro por R$ 10. O camping também tem barracas (R$ 10) e quartos (R$ 20, com café) bem simples, mas perfeitos para os que não vão resistir à tentação de esticar a viagem. E seguir descobrindo esse Brasil.

 

 

Marcas únicas

 

Uma hora você vai se deparar com a representação de uma cerimônia, uma dança ou alguma cena do cotidiano pré-histórico da região.

 

Em outro momento, ficará sabendo que aquele animal retratado na pedra deixou de existir milênios atrás.

 

O resultado? É quase impossível parar de tirar fotos durante a visita ao Parque Nacional da Serra da Capivara.

 

Leve um cartão de memória extra na bolsa porque, com certeza, você vai precisar.

 

Muitas fotos - Quando anoitece, os visitantes têm uma oportunidade única na Toca do Boqueirão da Pedra Furada. As pinturas rupestres recebem iluminação especial e a sensação é a de estar em um cinema ao ar livre. Basta caminhar pelas passarelas e descobrir as cenas pintadas 12 mil anos atrás. Custa R$ 50.

 

Hora da caçada - É difícil ficar indiferente diante da beleza das cenas - esta fica na Toca da Entrada do Baixão da Vaca. Representações têm características do Nordeste, apesar de traços semelhantes com pinturas em cavernas da Europa e da Oceania.

 

Flor de mandacaru

Você vai precisar ficar acordado até um pouquinho mais tarde. Mas terá sua recompensa. Poucos espetáculos são tão singelos quanto o desabrochar das flores brancas de mandacaru, com o luar ao fundo.

 

 

 

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