Marina deixa PT mas não anuncia ainda filiação ao PV

A senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, anunciou nesta quarta-feira que vai deixar o PT e que estuda agora a filiação ao Partido Verde, mas disse ainda não ter tomado decisão sobre a proposta de candidatar-se à Presidência.

ISABEL VERSIANI, REUTERS

19 Agosto 2009 | 15h19

"Para fazer um diálogo de filiar-me ao PV, que foi o convite que me foi feito, eu precisava primeiro refletir se iria ou não sair do Partido dos Trabalhadores", disse Marina a jornalistas. "A partir de agora, me sinto livre para fazer essa transição dentro daquilo que me dispus, uma discussão em termos programáticos."

Sobre a candidatura presidencial, Marina disse que "não está colocada esta questão a priori".

Antes de falar aos jornalistas, Marina comunicou a decisão de deixar o PT ao presidente da legenda, deputado Ricardo Berzoini (SP). Em carta ao partido no qual militou por 30 anos, Marina faz dura crítica ao atual modelo de desenvolvimento.

"Tenho a firme convicção de que essa decisão (de deixar o PT) vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida."

À frente do Ministério do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, Marina deu respaldo ao país contra a pressão internacional sobre o tratamento dispensado à Amazônia, mas enfrentou seguidos desgastes com colegas de governo quando havia conflito de interesses.

Polemizou com a ministra-chefe da Casa Civil e favorita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para disputar sua sucessão, Dilma Rousseff, por causa de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), como as usinas do rio Madeira. E foi alvo de críticas pelo rigor na concessão de licenças ambientais pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para essas e outras obras.

SANEAMENTO DO PV

Perguntada se o PV precisa questionar a liderança do ex-ministro do Meio Ambiente e deputado José Sarney Filho (MA) no partido, Marina defendeu a necessidade de sanear a legenda.

"Nunca tive a ilusão, nos últimos 10, 15 anos, de que os partidos seriam perfeitos", afirmou a senadora. "Hoje tenho a clareza de que todos têm problemas, e todos têm problemas a serem saneados, a realidade do PV não será diferente."

Marina frisou que foi a disposição do PV de rever sua estrutura e programa que a levou a avaliar a proposta de filiação.

Ela ressalvou, contudo, não ter a intenção de prejulgar ninguém do partido e afirmou que, do ponto de vista programático, Sarney Filho sempre esteve identificado com a causa ambiental.

O pai de Sarney Filho, senador José Sarney (PMDB-AP), tem sido alvo de uma série de denúncias desde que assumiu a presidência do Senado em fevereiro.

ELEIÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Em entrevista à Reuters na semana passada, a senadora afirmou que o Brasil está em um estágio de liderança para abrigar um movimento a favor da sustentabilidade ambiental, que se opõe ao que ela considera o desenvolvimento predatório.

"O desenvolvimento sustentável é algo que precisa ser colocado agora e o Brasil tem as melhores condições para a inflexão do modelo de desenvolvimento. Este debate nunca foi posto pelos partidos", afirmou à ocasião.

Para o vice-presidente da Conservação Internacional para América do Sul, José Maria Cardoso da Silva, a possível entrada da senadora na disputa presidencial vai "ampliar bastante a questão ambiental".

"Essa é uma oportunidade única para o debate sobre o modelo de desenvolvimento do Brasil, que tem um capital natural muito alto, um dos únicos países do mundo ainda com um capital natural alto, e não sabe bem o que fazer com esse capital", disse.

Já a oposição vê prováveis ganhos com uma candidatura Marina. "As possibilidades da candidatura de Marina estão relacionadas diretamente às dificuldades da candidatura de Dilma", avaliou o senador Sérgio Guerra (PE), presidente nacional do PSDB.

Guerra admitiu que Marina criaria algumas dificuldades ao PSDB no Rio de Janeiro no caso de se confirmar a candidatura do deputado Fernando Gabeira, do PV, que costura um apoio nacional aos tucanos. "Mas é claramente um problema que afeta o discurso do presidente Lula e do PT."

O senador petista Eduardo Suplicy (SP) disse que a saída de Marina é um duro golpe no PT. "É uma perda sem dúvida. A senadora Marina Silva constitui um dos maiores patrimônios da história do Partido dos Trabalhadores."

(Reportagem adicional de Fernando Exman, em Brasília, e Pedro Fonseca, no Rio)

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