Martírios pelas vacilações da fé

Em seu melhor romance, Relato de Prócula, W.J. Solha mistura religiosidade e prazeres da carne

Hugo Almeida, O Estadao de S.Paulo

24 de outubro de 2009 | 00h00

No discurso da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de 2006, transcrito em A Maleta do Meu Pai (Companhia das Letras), o escritor turco Orhan Pamuk (1952) afirmou que, na vida, como na literatura, o que sentia em relação ao seu lugar no mundo era que estava "fora do centro". Quando jovem, imaginava que no centro do mundo havia mais vida e animação do que na Turquia. "Eu me sentia excluído." Vários anos e livros depois - disse ainda -, descobriu que, ao contrário do que pensava na infância e na juventude, para ele o centro do mundo é Istambul. Não apenas porque passara a vida inteira lá, mas porque nas três últimas décadas escreveu sobre suas ruas, pontes, seus habitantes, cães, suas casas, mesquitas, fontes, seus estranhos heróis, seus pontos obscuros, seus dias, suas noites, etc.

O centro do mundo do artista é sempre o lugar onde nasceu ou vive - e revisita em sua obra. Para Joyce, o centro do mundo era Dublin; para Guimarães Rosa, o sertão de Minas; para Osman Lins, Recife; para Milton Hatoum, o centro é Manaus; o centro de Luiz Ruffato é Cataguases. O centro do mundo do escritor, pintor e ator W.J. Solha (1941), nascido em Sorocaba (SP), é Pombal e João Pessoa, na Paraíba, estado onde vive desde os 21 anos. Autor de cerca de dez livros, a maioria de ficção, ele acaba de publicar o seu melhor romance, Relato de Prócula, em que retrata a geografia - humana, inclusive - que escolheu. Não por acaso, o tradutor, poeta e ensaísta Ivo Barroso, em depoimento recente sobre o gênero literário em que Relato se insere, apresentado aqui mesmo no Cultura, destacou "a força dramática e a imaginação criadora" da obra.

Quando chegou a Pombal em 1962 para trabalhar no Banco do Brasil, recém-aprovado em um concurso, Waldemar José Solha nem de longe imaginava que encontraria ali o ambiente que o tornaria um artista múltiplo. Na adolescência, em Sorocaba, já desenhava - o quadro que aparece na capa do livro é de sua autoria - , mas foi no sertão paraibano que desenvolveu o talento de escritor e de ator. A agência do BB era, à época, tão visitada por vendedores de livros que a gerência limitou horário para eles. Em Pombal, Solha conviveu com alguns dos personagens deste Relato de Prócula, como o padre Martinho, o dr. Atêncio, Horácio - todos cultíssimos e cinéfilos -, as encantadoras Marias Grande, do Meio e Pequena, Maricô, Téu, Corrinha, etc.

De que trata, afinal, o Relato? De Cláudia Prócula, a mulher de Pilatos (ela defendia a absolvição de Cristo), e sobretudo do padre Martinho, que ''se martirizava pelas vacilações da fé'' e se deliciava com os prazeres da carne. O tema é recorrente na obra de Solha - Cristo, como mito, está no romance A Verdadeira Estória de Jesus (Ática, 1979) e na novela A Angústia de Lucas, de História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005). Agora o escritor faz, com mestria apurada, o que Schopenhauer dizia: "A tarefa do romancista não é narrar grandes eventos, mas tornar interessantes os pequenos". Inquietante e ao mesmo tempo sereno, Relato de Prócula é filosófico, erudito - e simples.

Ao interpretar Pilatos num espetáculo da Paixão de Cristo, padre Martinho conclui que João Paulo II e Bento XVI agiram corretamente ao abandonar a opção da Igreja pelos pobres, porque o próprio Jesus - o padre passa a crer - fora um agente romano infiltrado entre os judeus para divulgar uma nova fé bem reacionária: a de que se deve amar os inimigos e dar a César o que é de César. Daí o apoio de Pilatos a Cristo no seu julgamento, conforme um relato, concebido pelo padre, que teria sido feito por Prócula. Isso uniria as pontas soltas do Evangelho, até mesmo o sumiço de Cristo dos 12 aos 30 anos. Onde ele teria estado? Em Roma.

Após essa "descoberta" e decepcionado com os novos rumos do Vaticano, padre Martinho dispara contra o próprio peito, em plena Avenida Getúlio Vargas, em Pombal, mas, talvez por milagre, escapa. "Cristo existiu!", escreve o padre, convalescente no hospital, a Rubens Bentancur, narrador do romance e alter ego do autor (assim como o próprio Martinho). "Você está errado!", exclama ele (para o narrador, a história de Cristo seria plágio da de Platão). No fundo, o padre não queria morrer: dera um tiro na fé, não no homem; tanto que, poucas semanas depois, cheio de vida, concede uma divertida entrevista a Jô Soares sobre cinema - num dos pontos altos do romance.

Em favor das letras, há alguns anos Solha deixou o teatro e a pintura. "A literatura é mais angustiante, pois você vai fundo na essência do ser humano. Mas é a mais rica "visualmente" entre todas as artes, além de permitir o pensamento puro ao lado da ação", disse ele em recente entrevista ao site Diversos Afins (www.diversos-afins.blogspot.com). De Solha, pode-se dizer o que Elias Canetti escreveu sobre Dostoiévski: "O poeta cuja arte consiste em sua falta de distanciamento". Próximo do centro de seu mundo, visceral, W. J. Solha precisa ser descoberto pelo restante do Brasil.

Hugo Almeida, escritor, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor de Meu Nome É Fogo (Dimensão) e Viagem à Lua de Canoa, (Nankin),entre outros livros

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