Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Mas vai pra lá! Vai pra lá...

Quem é o compositor que abriu o baú de Sílvio Santos para resgatar os seus direitos autorais

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2010 | 12h57

Numa avaliação imerecidamente cruel, descontados os 36 lá-lá-lá-lá, sobra o quê? Pouco. Sobram 31 palavras, mas 20 são repetições de Silvio Santos vem aí e Vamos sorrir e cantar. Há saxofone, trompete, trombone, flauta, piano e bateria no arranjo até que caprichado, feito à moda das marchas militares americanas. Completam a letra mais dois versos apenas: Agora é hora de alegria e Do mundo não se leva nada. Quarenta compassos, 1 minuto e 5 segundos no total. E acabou-se. Fim. Em matéria de jingles é assim mesmo, está na essência da coisa: o pouco vale muito. Pois Silvio Santos Vem Aí está valendo R$ 1,4 milhão, segundo decisão judicial de duas semanas atrás. É o valor da indenização que o dono do Baú foi condenado a pagar a Archimedes Messina, criador da canção, pela execução de uma fieira de lá-lá-lá-lás nos últimos 20 anos, sem o devido pagamento de direitos autorais. Pelas contas da defesa de Messina, somados juros e correção monetária, o bolo já estaria em R$ 3 milhões.

 

"Não se trata de uma obra de arte. Mas cumpre seu propósito com perfeição", considera o maestro João Maurício Galindo, regente e diretor artístico da Orquestra Jazz Sinfônica. "É como ir a um restaurante extraordinariamente caro e achar que a comida, embora aquém do que você pagou, deu para matar a fome", ele tenta esmiuçar. Trocando em dó-ré-mi, em toda a sua simplicidade, Silvio Santos Vem Aí foi precisa ao embalar a aparição do dono do Baú na TV, domingos e domingos a fio. Messina, o pai da criança, vai mais longe. Miúdo e sempre bem disposto, ele tem certeza de que a "musiquinha", como se refere às composições de sua lavra (e aí não vai depreciação, só carinho), ajudou a transformar Silvio Santos no que ele é.

 

Messina venceu. As 78 anos, está feliz. Mas lá com os seus botões reclama que queria estar um bocadinho mais. O saco é ter que manter a rotina de fiscal nos domingos à noite para checar se, mesmo proibido pelo juiz, Silvio Santos vai tocar a sua música. A multa é de R$ 1.000 por execução indevida. E, nas palavras de Maria Eliane Jundi, advogada de Messina, o apresentador "não está nem aí", pois ele continua vindo, vindo e vindo ao som de Silvio Santos Vem Aí. É por isso que hoje, lá pelas oito e meia, Messina e Inajá, sua senhora há 45 anos, vão se sentar diante da TV na casa da Serra da Cantareira, em São Paulo, e, antes de o show começar, desfiar o diálogo há décadas invariável:

 

Messina: Será que ele vai tocar?

Inajá: Cara de pau...

Messina: Acho que hoje ele para. Não é possível que continue.

Inajá: Cara de pau...

Messina: Ai, meu Deus, tocou. Ele tocou de novo... E cantou junto... Assim não dá!

Inajá: Filho #@ *&¨@!

 

Silvio Santos Vem Aí foi feita em 1964. Encomenda do próprio Silvio, na época locutor da Rádio Nacional. Ele queria algo para anunciar sua entrada no ar. Messina circulava bem pelas emissoras paulistanas desde seus tempos de rádio-ator. Àquela altura, arriscava-se na criação de uns sambinhas sem compromisso e tirava o sustento como compositor contratado de um estúdio de jingles comerciais. A musiquinha baixou nele numa tacada só, letra e melodia. "Não sei explicar. Minhas composições vêm. Elas simplesmente vêm", ele diz. "Antigamente eu registrava num gravador, com medo de esquecer. Agora não preciso mais." Incapaz de diferenciar um dó de um fá no pentagrama, Messina, quando muito, batuca numa caixa de fósforos. E para transformar em som de verdade a melodia que lhe chega à mente recorre a um músico de formação. Cantarola seus lá-lá-lá-lás e, juntos, os dois arrematam a obra.

 

Foi assim com as suas mais de 400 composições, algumas delas gemas do cancioneiro publicitário nacional. É de Messina uma série de jingles famosos dos anos 60, 70 e 80, como a longa série feita para a Varig (Seu Cabral, Urashima Taro, In Italia) e para o Café Seleto (Depois de um sono bom, a gente levantááá, toma aquele banhúúú, escova os dentiiinhos...) - este o seu xodó, o que o faz chorar. Ele vive dos direitos autorais dessas composições, muitas delas transformadas em marchinhas de carnaval, e de uma aposentadoria. Vive bem, mas desconversa sobre os cifrões.

 

"O Messina é um gênio, não temo estar exagerando", comenta o publicitário Lula Vieira, colecionador de jingles e diretor de marketing da editora carioca Ediouro. "Ele consegue transformar em emoção toda a racionalidade que deve conter uma peça publicitária. E isso não é fácil. Por que você acha que hoje os jingles são trocados por músicas já consagradas nos comerciais? Porque não tem quem os faça direito."

 

Que o digam alguns políticos atualmente com campanha na rua. Claudir Maciel, candidato do PPS a deputado estadual em Santa Catarina, na maior sem-cerimônia transformou I Want To Break Free, do Queen, em Eu vou votar no Claudir. É bom, mas não chega aos pés da ideia de Lindolfo Pires, do DEM. De olho numa cadeira na Assembleia Legislativa da Paraíba, ele sapecou uma versão de Beat It, de Michael Jackson. Por similaridade fonética, "beat it" virou "Pires". Ilegal, mas genial. Tente cantarolar no ritmo da original: "O dia tá chegando / Pode se preparar / Vinte e cinco cento e onze / Pode digitar / Na hora de optar / Você sabe em quem votar/ Lindolfo Pires, Pires, Pires / Pireeees..."

 

Messina também sempre carregou no bom humor, com a vantagem de ser mais sofisticado. Naqueles idos de 64, ele voltou a Silvio Santos uma semana depois com uma fita de rolo na mão. Na gravação, ele mesmo cantava Silvio Santos Vem Aí acompanhado só de violão. O cliente aprovou e mandou gravar a versão definitiva. "Não ganhei nem um tostão porque eu era funcionário do estúdio, tinha um ordenado. A gente não falava em direitos autorais, era outra época", recorda. Sucedeu que Silvio Santos virou Silvio Santos, foi arrebentar na televisão como o maior comunicador de massas do País e carregou a musiquinha de Messina consigo. Virou a pele dele. Difícil imaginar o Programa Silvio Santos sem Silvio Santos Vem Aí. Ou você consegue pensar no homem adentrando o estúdio e as colegas de trabalho, ensandecidas, berrando, sei lá, "a pipa do vovô não sobe mais..."? Não dá.

 

Levou dez anos para famigerada música-tema ser comercializada na forma de disco. Ela está num long-play de dez faixas lançado pela RCA Victor em 1974 e intitulado - adivinha! - Silvio Santos e suas Colegas de Trabalho. A canção de Messina é a primeira do lado A. Só que por um vacilo da gravadora a autoria foi creditada a outro compositor, Heitor Carillo. Resultado 1: Messina jamais recebeu pelas vendas do LP. Resultado 2: "Durante o processo, o SBT tentou usar esse erro para dizer que a música não era do meu cliente", conta a advogada Maria Eliane. "Localizamos o Heitor Carillo, que escreveu de próprio punho uma declaração confirmando equívoco da RCA, ou seja, que a música não era dele e sim do senhor Archimedes."

 

Ao longo da carreira, Silvio Santos gravou 135 músicas, espalhadas por 4 LPs, 41 compactos e outros tantos CDs. Neste domingo um trechinho de cada uma delas - e mais uma porção de preciosidades relacionadas ao apresentador (vai ser possível girar virtualmente o pião da casa própria, veja que maravilha) - poderão ser ouvidas no sítio paginadosilviosantos.com. Promessa do editor de vídeo Levy Fioriti, fã de ter microfone igualzinho ao do Silvio e toda a cantoria dele dentro do iPod. Rapagão meio tímido, 27 anos, Fioriti não gosta nem de pensar no que vai ser quando seu ídolo morrer. Mas se você insistir um pouco ele pinta um cenário provável: "Bem, imagino todas as TVs transmitindo o cortejo, mais gente na rua do que no funeral do Ayrton Senna, o País parado, tudo fechado e ao fundo, só no piano, devagarzinho, uma versão triste de Silvio Santos Vem Aí". Na última quinta-feira, contei isso a Messina. E ele, com toda a sua singeleza: "Pagando meus direitos autorais, tudo bem".

 

Jerônimúúú. Durante anos Messina acreditou que Silvio, mal assessorado, só não o remunerava por ignorar o problema. "Mandei cartas, fui ao SBT. Ele nunca me recebeu. Mas eu estava certo de que, se tivesse a chance de contar a ele o ocorrido, tudo se resolveria num instante, eu sairia de lá com meu cheque no bolso e pronto." Não foi bem assim, como se sabe. E não foi só com Messina.

 

O compositor Mário Lúcio de Freitas também cobra na Justiça uma bolada do SBT. Com 15 anos de serviços prestados à emissora, ele é autor de 40 aberturas de programas e novelas: Chávez ("Lá vem o Chávez, Chávez, Chávez..."), TJ Brasil, Hebe, Escolinha do Golias, Programa Livre, Chispita, Direito de Nascer, Jerônimo ("Jerônimúúú, filho de Maria Homem, Jeronimúúú..."). Freitas dá a sua versão do tamanho da encrenca: "Ao contrário do que determina a lei, jamais colocaram meu nome nos créditos de 38 mil exibições. Só de Chávez foram 20 mil episódios. Meus advogados pleiteiam uma indenização de R$ 280 milhões." Como eles chegaram a esse valor? Seis segundos de um único comercial de cada programa. Seis segundos, diz Freitas, é o tempo que seu nome deveria aparecer toda vez que uma obra sua fosse ao ar.

 

No caso de Messina, o cálculo feito pela Justiça foi parecido: 1% do valor de um comercial de 30 segundos exibido no Programa Silvio Santos. O valor de tabela tomado como base foi o de R$ 136 mil. Um por cento disso, vezes 1.040 domingos (20 anos), igual a R$ 1,4 milhão. "Só que nós ainda vamos recorrer desse valor", avisa a advogada Maria Eliane. "A perita que fez os cálculos para a indenização determinou 10%. Foi o juiz quem baixou para 1%. Acreditamos que, dada a jurisprudência, podemos chegar num meio termo." O bolo de Messina atingiria, então, R$ 7 milhões de altura. Procurado, o SBT disse que nem Silvio Santos nem seus advogados dariam entrevista sobre o assunto. A emissora pretende recorrer do valor da indenização por considerá-lo muito alto.

 

Dia desses, voltando de sua caminhada matinal, Messina recebeu um telefonema de um velho conhecido há muito sumido e hoje gerente do Banco Panamericano, empresa do Grupo Silvio Santos. O homem dizia: "Ô, Messina, agora que você tá rico passa aqui pra investir". Inajá não se conteve: "Cara de pau!" Messina, rindo, foi terminar mais uma musiquinha que lhe veio. Ela se chama Ponha um Pouco de Samba na sua Vida e lá pelas tantas diz assim: "Faça de conta que não deve nada / faça de tudo uma piada / deixe a tristeza pra lá / e comece a balançar". Messina jura que não é provocação.

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