Arte de Alessandro Gil sobre foto de Werther Santana/Estadão
Arte de Alessandro Gil sobre foto de Werther Santana/Estadão

Máscaras salvam vidas dentro e fora do hospital

Quando as pessoas respeitam as regras, ficam protegidas mesmo em ambientes que atendem casos de covid-19

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

09 de novembro de 2020 | 05h00

A indicação de medidas para evitar a transmissão do coronavírus foram mudando ao longo dos meses de pandemia, conforme cientistas foram aprendendo sobre o novo vírus. Mesmo os hospitais tiveram que rever seus protocolos diversas vezes desde março. Atualmente, com milhares de estudos sobre o SARS-CoV-2, já é possível saber com mais segurança o que de fato funciona. Também é possível procurar um serviço médico para situações não relacionadas ao covid com bastante confiança de não ser contaminado.

O comportamento individual contribui para diminuir a pandemia, explica Paulo Chapchap, diretor geral do Hospital Sírio-Libanês. “Hoje a gente já sabe como evitar a disseminação. Uma medida simples é usar máscara. Também não é para se reunir em ambientes fechados”, afirma o médico.

Chapchap defende que a máscara seja de uso obrigatório, pois o direito coletivo à vida se sobrepõe a determinadas liberdades individuais. “As pessoas aceitam que não pode andar a mais de 80 quilômetros por hora em certas vias, porque isso botaria a vida dos outros em risco. Ou que não se entra em certos lugares sem ter vacina. A sociedade tem o direito de restringir um direito individual em algumas situações. Você não tem direito que a sua liberdade ponha em risco a minha vida”, diz.

Quando as regras conhecidas são de fato respeitadas, as pessoas ficam protegidas mesmo em ambientes de risco, como hospitais que atendem pacientes com e sem covid-19. “Os fluxos têm de ser apartados desde a entrada. Nós construímos barreiras físicas”, conta Chapchap sobre o Sírio-Libanês. De acordo com ele, a prova de que o esquema funciona é que os colaboradores do hospital têm uma prevalência menor da doença do que na sociedade.

Diogo Assed Bastos, oncologista do Icesp, espera que a cultura de proteção do profissional de saúde fique como um legado no pós-pandemia. “Na sociedade em geral, o legado deve ser o de lavar as mãos e que pessoas com sintomas de gripe evitem circular, por respeito aos outros”, acredita.

Ele alerta, contudo, que esses comportamentos são urgentes. “Não podemos ter um segundo pico de covid. Ele seria desastroso para o sistema de saúde, para a economia, para a sociedade. Hoje sabemos mais do que antes, estamos melhor preparados. Mas só agora estamos conseguindo tratar casos represados”, afirma sobre as pessoas que deixaram de procurar os serviços de saúde durante os primeiros meses de pandemia.

Medidas possíveis contra a covid-19

José Branco, diretor executivo do Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente, acredita que só com uma boa coordenação e uma comunicação clara com a sociedade a saúde do Brasil vai conseguir enfrentar a crise. O problema é que não vê sinais disso por parte do governo federal. Branco pede ainda testes em massa, isolamento e monitoramento de contatos para evitar um lockdown, que afeta, além da economia, a saúde mental das pessoas.

“A ideia de imunidade de rebanho é um desastre. Sobrecarrega o sistema e não vou ter profissional para atender a todos”, diz. A sobrecarga representa um problema não só para profissionais da saúde, mas para toda população. “Se tiver sobrecarga, vamos precisar improvisar. Se improvisarmos, mortes aumentam. Não se pode baixar a guarda”, afirma Chapchap.

Embora bons protocolos para a segurança hospitalar sejam conhecidos, eles normalmente não chegam ao País inteiro. “Em Porto Velho, eu vi como os protocolos, implementados em parceria com o Sírio, transformaram um hospital”, cita Tânia Ortega, da Comissão de Qualidade do Conselho Federal de Enfermagem.

Problema antigo no sistema público

Segundo ela, a grande mortalidade por covid-19 de profissionais de saúde, sobretudo técnicos e auxiliares de enfermagem, demonstra as condições precárias com que esses profissionais vêm trabalhando faz tempo no País. “A pandemia veio tirar o véu e revelar a realidade que os profissionais de enfermagem já enfrentavam. Os protocolos são excelentes, é só aplicá-los. Onde mais se aderiu, onde a preocupação com segurança já era mais consolidada, os profissionais adoeceram pouco”, afirma a profissional.

A maior parte das instituições, porém, oferece pouca formação continuada e trabalha com déficit de enfermeiros. “A segurança do profissional de enfermagem não é só EPI (equipamento de proteção individual), é também ambiente seguro e conhecimento. Para garantir a segurança do paciente, primeiramente tem de se proteger seus funcionários. Um profissional pode contaminar muitos pacientes”, alerta Tânia.

Casos de câncer não podem esperar

A demora no diagnóstico ou atraso no tratamento pode provocar complicações para uma série de patologias. Esse “dano colateral” da pandemia, que afastou pacientes dos médicos, tem consequências especialmente ruins para casos de câncer. “Nossa meta é diagnóstico precoce. Ao ficar para depois, perdemos oportunidades de cura ou de um melhor tratamento”, afirma António Carlos Lima Pompeo, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia. Ele cita os cânceres de mama, intestino, próstata e pênis como alguns dos tipos em que o diagnóstico precoce é fundamental. “Não interrompa seu tratamento, porque as consequências vão vir depois”, apela.

Embora pacientes com câncer sejam mais vulneráveis, Jorge Vaz Pinto Neto, vice-diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular, pede que confiem. “Cuidados de se expor menos, usar máscara e lavar as mãos têm se mostrado suficientes para a segurança de pacientes e médicos. Já fiz 13 vezes o exame, e dá negativo.” Ele lembra que os laboratórios fazem exames drive-thru ou em casa. Não basta conscientizar os pacientes, é necessário um esforço coordenado sobretudo no Sistema Único de Saúde (SUS) para diminuir filas por exames e atendimentos.

“Nossa preocupação é com a falta de um plano de retomada. Sabemos que nos espera uma epidemia de casos avançados de câncer”, afirma Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, que reúne pacientes oncológicos. O perigo do não tratamento se estende a diversas condições. Doentes cardíacos e diabéticos sem acompanhamento podem ter complicações graves.

Formas de se proteger

1 Use sua máscara durante todo o tempo em que permanecer fora da sua casa

2 Higienize as mãos com frequência e sempre que ajustar a sua máscara

3 Evite aglomerações. Mantenha uma distância segura das outras pessoas (cerca de 1,5 m)

4 Toque o mínimo possível em qualquer superfície. Evite botar as mãos no rosto

5 Não cumprimente com beijos, abraços ou apertos de mãos

6 Não compartilhe objetos, alimentos e utensílios

Fonte: Guia Retomada Segura, do Hospital Sírio-Libanês

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