Russel Hart/EFE
Russel Hart/EFE

Material que pode revolucionar eletrônicos dá Nobel de Física a russos

Ciência. Pesquisadores descreveram o grafeno, cristal de carbono bidimensional minúsculo que é excelente condutor de calor e eletricidade. Material pode levar à criação de computadores mais velozes e telas de toque ultrafinas e flexíveis para TV e livros

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2010 | 00h00

Dois cientistas de origem russa foram anunciados ontem como vencedores do Prêmio Nobel de Física 2010 pela descrição do grafeno, um cristal de carbono bidimensional minúsculo, excelente condutor de eletricidade e calor, que pode revolucionar a fabricação de produtos eletrônicos nos próximos anos.

"Andre Geim e Konstantin Novoselov demonstraram que o carbono, em forma tão fina, tem excepcionais propriedades oriundas do notável mundo da física quântica", enaltece o comunicado da Academia Real Sueca de Ciências, de Estocolmo.

Ligados à Universidade de Manchester, Geim, de 51 anos, e Novoselov, de 36, são pioneiros no estudo do grafeno, um material novo, o mais fino e mais forte já criado, excelente condutor de eletricidade e calor e quase transparente.

"Eles extraíram o grafeno de um pedaço de grafite igual ao encontrado em lápis. Usando fita adesiva comum, obtiveram uma camada de carbono com a espessura de um único átomo", diz a academia. "Os físicos podem agora estudar uma nova classe de materiais de duas dimensões com propriedades únicas."

As aplicações do grafeno, uma folha de um átomo de espessura, vão da criação de novos materiais à fabricação de eletrônicos inovadores, baseados em transistores mais rápidos.

Processadores e computadores mais velozes, novas telas de toque, ultrafinas e flexíveis para TVs, computadores, livros e jornais eletrônicos, além da produção de energia por placas de captação solar, estão entre os precedentes abertos pela tecnologia. "O grafeno também pode ser usado no sequenciamento do DNA", lembrou o professor Ingemar Lundström, um dos responsáveis pela escolha da academia.

Extração. A contribuição central de Geim e Novoselov foi a criação de um método revolucionário de extração do grafeno, -material previsto em 1947, mas que, até o artigo dos dois pesquisadores na Science, em 2004, não havia sido encontrado na natureza ou produzido em laboratório.

Desde então, pesquisadores de todo o mundo, em especial os ligados à informática, correm para dominar suas aplicações possíveis. "É uma técnica simples", reconheceu Geim em entrevista à Associated Press, sobre o método que criou. "O trabalho mais duro vem agora."

Em entrevista à academia sueca, Geim encorajou jovens pesquisadores de universidades menos renomadas a usar ferramentas simples, como um lápis e uma fita adesiva - os utensílios que deram origem à extração do grafeno - nas pesquisas.

"Você não precisa estar em Harvard ou Cambridge ou em uma das universidades que contam com os mais inteligentes pesquisadores ou os melhores equipamentos", pregou. "Você pode estar em uma instituição de segunda ou terceira linha em termos materiais e de prestígio e fazer algo extraordinário, que traga entusiasmo para jovens cientistas."

Na Rússia, a premiação foi motivo de orgulho e frustração. Em pronunciamento, o presidente Dmitri Medvedev lamentou a "fuga de cérebros" dos centros russos de pesquisa desde os anos 80. "Devemos fazer esforços para nossos cidadãos não partirem ao exterior. Não temos um sistema digno para estimular nossos jovens especialistas a permanecerem no país."

Benefícios

ANDRÉ GEIM

PRÊMIO NOBEL DE FÍSICA 2010

"Minha experiência demonstra que ainda existe um número surpreendente de fenômenos esperando para ser descobertos."

NANCY ROTHWELL

REITORA DA UNIV. DE MANCHESTER

"É um magnífico exemplo de como uma descoberta fundamental baseada na curiosidade científica pode dar origem a grandes benefícios práticos, sociais e econômicos para toda a comunidade."

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