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McBerinjela ou McEspinafre?

Com a contratação do chef milanês Gualtiero Marchesi, o McDonald’s acaba de vencer um round importante na luta travada há 25 anos com os milhares de italianos que desaprovam sua comida e estilo de alimentação. Na semana passada, as 419 lanchonetes do gigante americano abertas no país começaram a vender (até 15 de novembro) dois panini (sanduíches) e um dessert (sobremesa) de autoria do chef que na década de 70 introduziu a nouvelle cuisine na Itália e influenciou centenas de chefs.

Dias Lopes,

12 Outubro 2011 | 23h14

São o hambúrguer vivace, à base de carne bovina, com o pão recoberto de sementes de girassol e recheio de bacon, espinafre salteado, cebola marinada e maionese com grãos de mostarda; e o hambúguer adagio, também bovino, com amêndoas em pedaços na casca do pão e recheio de mousse de berinjela, fatias de tomate, berinjela agridoce e ricota salgada; a sobremesa foi batizada de minuetto e reinterpreta o tiramisù, o doce mais popular da Itália, que Marchesi classificou de "alla milanese" por levar uma fatia de panetone ao molho de café, creme de mascarpone e amêndoas. Os nomes saíram da paixão do chef pela música erudita.

"Parece brincadeira", desabafou um jornal italiano. Afinal, Marchesi concedeu ao McDonald’s o aval da alta gastronomia do país no qual fast-food é chamado com ironia de cibo veloce (comida veloz) e onde na década de 80 ele provocou o nascimento do Slow Food, um movimento que propõe a educação do gosto e o respeito ao ritual civilizado da mesa. Mas o chef explicou que seus panini "abriram as portas do reino do hambúrguer à berinjela e ao espinafre". Disse que chegou a hora de levar aos jovens, maioria entre os 700 mil clientes diários da rede na Itália, a revolução do gosto que liderou no século passado.

Apesar do sucesso de faturamento, a vida do gigante do fast-food não tem sido fácil no país. Os problemas surgiram em 1986, quando o McDonald’s inaugurou a primeira lanchonete em Roma (segunda da Itália, após o fracasso da aberta pouco antes no Trentino Alto Adige), no térreo de um palazzo renascentista da Piazza di Spagna.

Acreditando que o fast-food descaracterizava uma zona histórica e ameaçava a genuinidade da sua culinária, a população foi à luta. Os macarroneiros fizeram passeata distribuindo massa à vontade. Instalado nas vizinhanças, o costureiro Valentino teria sofrido um ataque de apoplexia ao sentir o cheiro de batata frita invadir seu ateliê e obrigou o McDonald’s a comprar um equipamento de controle dos odores.

O gigante do fast-food sempre agiu com cautela, inclusive quando um desconhecido esqueceu no balcão da loja American Express, nas vizinhanças, uma maleta suspeita de ocultar uma bomba: alguém jurou ouvi-la fazer tique-taque... O cronista Luis Fernando Verissimo, que em 1986 morou seis meses na capital italiana, conta essa história divertida no livro Traçando Roma (Artes e Ofícios, Porto Alegre, 1993).

Por algum tempo o McDonald’s teve poucos endereços na Itália, contrariando sua política de multiplicação agressiva. Até 1994 eles somavam 23 casas. Para conquistar os clientes que, segundo Verissimo, "já passaram da idade de se fascinarem com o apelo colorido do fast-food", incorporou ao cardápio pratos italianos, obviamente sem abrir mão dos calóricos hambúrgueres americanos.

Enquanto isso, ia enchendo o cofre. Em 1996, com 38 lanchonetes no país, comprou as 88 da rede italiana Burghy - e deu um salto. Depois, abriu outras nos postos de gasolina Agip, introduzindo no país o conceito americano de drive-thru. Finalmente, adotou o sistema de franquia. Agora, requisita Marchesi para inventar receitas. O chef milanês acredita que contribuirá para refinar o gosto dos jovens viciados em cibo veloce. Que Deus o ajude!

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