Mccoy o piano supremo

Pianista de Coltrane toca com seu quarteto na República

Jotabê Medeiros,

05 Maio 2012 | 05h03

Em 1966, após lançar A Love Supreme, John Coltrane ouviu de um repórter a fatídica pergunta sobre quais seriam seus planos para o futuro. "Tornar-me santo", respondeu Coltrane. Às 19 h deste sábado, aquele piano espiritualizado que ouvimos no som em vias de beatificação de A Love Supreme, um dos maiores clássicos do jazz na História (até 2004, tinha vendido 4 milhões de cópias pelo mundo), estará soando na Praça da República, na 8.ª edição da Virada Cultural.

Aos 73 anos, vindo de Salvador, onde se apresentou anteontem, McCoy Tyner, o pianista de John Coltrane, toca na praça com seu quarteto, que inclui Gary Bartz, sax; Gerald Cannon, baixo; e Eric Gravatt, bateria. Tyner já esteve seis vezes no Brasil, e tocou no TIM Festival em 2003 com uma big band. É amigo de Guilherme Franco, João Gilberto e sempre se deu bem com alguns músicos de estúdio, como o percussionista Waltinho Anastácio (que gravou em dois discos de Tyner: Journey e Infinity).

McCoy Tyner está há mais de 50 anos na estrada, excursionando e fazendo discos sempre muito avançados. No último, Guitars, ele convida uma fantástica geração de experimentalistas da guitarra (Derek Trucks, John Scofield, Bill Frisell, Marc Ribot, Derek Trucks e o homem-banjo Bela Fleck) para compor e tocar temas consigo. "É uma coisa que eu fiz pouco em minha carreira, então achei que pudesse ser um desafio divertido", afirmou o pianista.

É consenso também que seja um dos pianistas acústicos mais imitados da atualidade. Insere-se num time de sobreviventes de uma era dourada do jazz. Ao lado de Yusef Lateef (90 anos), Ornette Coleman (80 anos), Sonny Rollins (80 anos) e Dave Brubeck (90 anos), mr. Tyner carrega o legado de um período de gigantes.

O concerto deverá reunir alguns standards da própria série de discos que Tyner fez ao longo da carreira, como Walk Spirit, Talk Spirit (Enlightenment; Milestone, 1991), Ballad for Aisha (McCoy Tyner: Together, Fantasy Records, 2006) e La Cubana (Fantasy Records, 2006), além de composições de Coltrane, como Moment’s Notice (do disco Blue Train, de 1957). É possível também que compareçam outros compositores, como Duke Ellington (McCoy adora tocar In a Mellow Tone).

Ele comentou, em Salvador, que poderia eventualmente incluir Festival in Bahia (que está no disco McCoy Tyner and the Latin All Stars, de 1999) ou Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá. O espectro musical de McCoy Tyner é infinito, mas seu estilo parece ignorar os gêneros, alcançando um firmamento único. "Quando eu era muito jovem, o som das big bands era o mais popular da época. No momento em que eu realmente comecei a tocar, pequenos grupos estavam em voga, e pessoas como Bud Powell e Jimmy Heath e John Coltrane estavam morando na minha área. Então, você se influencia pelo que está ao seu redor, e o jazz estava em todo lugar", disse o pianista, em Salvador.

Ele nasceu na Filadélfia em 1938, numa época especialmente fértil para a música. Seus vizinhos e amigos incluíam Bud e Richie Powell, Bobby Timmons, Lee Morgan, Archie Shepp e Reggie Workman. Aos 17 anos, quando tocava no Red Rooster com a banda do trompetista Calvin Massey, ele conheceu John Coltrane, na época integrando o quinteto de Miles Davis. Três anos depois, começou sua colaboração. "John era a única pessoa com quem eu queria tocar naqueles dias", afirmou.

Tyner gravou cerca de 20 álbuns com o grupo de Coltrane, que incluía o lendário baterista Elvin Jones, Jimmy Garrison no baixo (e, mais tarde, o mítico saxofonista Eric Dolphy). McCoy permaneceu com Coltrane até 1965. Nesse período, também começou a gravar seus próprios álbuns - o primeiro foi Inception, quando tinha somente 23 anos.

Da penúltima vez que passou por aqui, em 2003, seu show passava do hard-bop, como em Blues on the Corner, para brilhantes viagens rítmicas, como em Passion Dance (duas faixas que estão no seu disco The Real McCoy, da Blue Note Records). Na última vez, em 2010, ele tocou numa igreja em Olinda, durante a Mostra Internacional de Música de Olinda, a Mimo.

Sempre muito politizado, o pianista comentou ao Estado, em 2003, as sucessivas guerras de intervencionismo americano no Oriente Médio. "É por dinheiro e petróleo. Não acho que seja por honra. Também não é por questões religiosas, mas somente pelos negócios. As duas religiões, o islamismo e o catolicismo, ensinam as mesmas coisas. O fato é que esses líderes não se importam com o próximo, e em religião não se ensina isso. É um conflito de fundo puramente econômico, não há respeito pelos povos envolvidos. Acho isso terrível. Dizem que são terroristas islâmicos, mas o cara de Oklahoma fez a mesma coisa e era americano. É só gente doida, que usa a religião como pretexto."

Por fim, Tyner falou sobre sua amizade com John Coltrane, mestre para quem já fez inúmeros tributos (como o disco Remembering John, de 1991). "Foi uma experiência maravilhosa. Além da minha própria música, a coisa mais fantástica que fiz na vida foi tocar ao lado de Coltrane. Se ele era difícil? Não, não era. Era um homem gentil, generoso, uma pessoa bonita. Eu era muito novo e ele tomou conta de mim, como um irmão mais velho."

RAZÕES PARA IR

1.Jerome Dupree (bateria), Dana Colley (sax) e Jeremy Lyons (baixo, guitarra e voz) trazem a mística do Morphine, do finado Mark Sandman, para o palco da Avenida São João. Dom., 4h30

2.Os Titãs revivem, também no Palco São João, às 12 h de domingo, o fundamental disco Cabeça Dinossauro (1986)

3.Pioneira do rock progressivo nacional, A Bolha toca às 20 h no palco Barão de Limeira (logo após Serguei)

4.No Sesc Santo Amaro, Paulo Miklos, Nasi, Marcelo Nova e Kid Vinil apresentam-se com a Caverna Guitar Band e prestam tributos a Elvis, Raulzito, Beatles, Roberto

5.No encerramento da Virada, às 18 h de domingo, a pedida é Gilberto Gil no Palco Júlio Prestes

Mais conteúdo sobre:
culturaviradapianista

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.