Beto Barata/AE–31/5/2011
Beto Barata/AE–31/5/2011

MEC gasta R$ 13,6 mi com 7 milhões de livros para 'ensinar' que 10 - 7 = 4

Coleção Escola Ativa foi distribuída em 2010 a 39,7 mil classes multisseriadas da zona rural do País; especialistas contratados após a descoberta dos erros julgaram que eles eram tão graves, grosseiros e numerosos que não bastava divulgar errata

Marta Salomon e Denise Madueño, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2011 | 00h00

O Ministério da Educação pagou R$ 13,6 milhões para ensinar que 10 - 7 = 4 a alunos de escolas públicas da zona rural do País. No segundo semestre do ano passado foram distribuídas com erros graves 200 mil unidades da coleção Escola Ativa, destinada às classes que reúnem alunos de várias séries diferentes.

Ao todo, foram impressos 7 milhões de livros - cada coleção Escola Ativa contém 35 volumes. Os erros foram detectados no início do ano, e um grupo de especialistas contratados pelo ministério julgou que eles eram tão graves, tão grosseiros e tão numerosos que não bastava divulgar uma errata à coleção.

Os livros com erros foram distribuídos a 39.732 classes multisseriadas da zona rural, presentes em 3.109 municípios de todos os Estados do País. Segundo publicação do MEC, essas classes atendem 1,3 milhão de alunos.

Provocado pelo Estado, o ministro da Educação, Fernando Haddad, pediu à Controladoria-Geral da República (CGU) a abertura de sindicância para apurar o tamanho do prejuízo e os responsáveis por ele. Ao mesmo tempo, mandou uma carta aos coordenadores de escolas da zona rural recomendando que os livros da coleção Escola Ativa não sejam usados em sala de aula. A coleção foi retirada do ar na internet.

"O número de erros é razoável, isso não se resolve com errata", disse Haddad ontem ao Estado. A reportagem buscava informações do MEC sobre o destino da coleção desde segunda-feira.

"Houve uma falha de revisão, essa revisão foi muito malfeita", admitiu o ministro, insistindo que se trata de um material de apoio às classes multisseriadas no campo. "A interrupção da utilização não comprometerá o ensino, porque esse é um material de uso opcional", completou.

A última versão da coleção Escola Ativa teve a impressão encomendada à gráfica e editora Posigraf, de Curitiba. Segundo registro no Portal da Transparência, site mantido pela Controladoria-Geral da União, o trabalho custou aos cofres públicos exatos R$ 13.608.033,33.

O dinheiro seria suficiente para a construção de 36 escolas de educação infantil, segundo cálculo usado recentemente pelo próprio ministério. As 200 mil coleções foram impressas e distribuídas no segundo semestre do ano passado, sem que percebessem as falhas na edição.

Erros primários. O MEC informou não ter toda a coleção disponível para a consulta em Brasília. Mas, entre os exemplos que condenaram a edição, os erros de matemática são os mais notáveis. Na página 29 do guia 4 de matemática, a Escola Ativa convida os alunos a fazer descobertas com números, na companhia dos personagens Joana e Pedro. A página apresenta uma tabela que mostra 10 - 7 = 4.

A página 138 do guia 3, também de matemática, apresenta tabelas de adição e subtração para que os alunos confiram os resultados de operações com números entre 9 e 18. Nas tabelas da Escola Ativa, o aluno da zona rural aprende que 16 - 8 = 6 e 16 - 7 = 5.

A pedido do MEC, a Controladoria-Geral da República deve abrir sindicância nesta segunda-feira para investigar o caso. O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC à época da contratação era André Lázaro, atual secretário executivo da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.

Na segunda-feira ele disse que a coleção ficara indisponível "para pequenas correções". Ontem, Lázaro pediu demissão.

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