MEC ignorou alerta da PF de que vazamento do Enem no Ceará foi maior

Educação. Em novembro, logo após ministro Fernando Haddad anunciar pré-candidatura à Prefeitura, governo foi avisado de que, além de alunos do 3º ano do Colégio Christus, os do curso pré-vestibular também tiveram acesso a questões do Enem, mas nada fez

RAFAEL MORAES MOURA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2011 | 03h03

O ministro da Educação e pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, ignorou informação da Polícia Federal de que o vazamento de 14 questões do Enem 2011 foi maior que o admitido oficialmente. Mesmo avisado de que a fraude não se restringiu a 639 alunos do Colégio Christus, de Fortaleza - atingindo também estudantes do curso pré-vestibular da instituição -, o MEC manteve a anulação das questões só para o colégio. Agora, a pasta admite anular as questões dos alunos do cursinho.

Em resposta ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo Enem, a PF informou, em novembro, haver "evidências" de que os alunos do cursinho pré-vestibular tiveram acesso antecipado a questões do exame. Mas o MEC puniu apenas os estudantes regulares. O Estado publicou, em 29 de outubro, que os estudantes do cursinho também haviam tido acesso às questões - a PF escutou os mesmos estudantes que falaram à reportagem.

Em meados de novembro, o ministro já se lançara pré-candidato e a divulgação de que o vazamento fora maior poderia prejudicar sua agenda pré-eleitoral.

Questionado, o MEC confirmou estar "ciente" das evidências levantadas pela PF e admite possibilidade de anular questões da prova de cerca de 500 outros estudantes, do cursinho.

Para calibrar o grau de dificuldade das questões do Enem pela Teoria de Resposta ao Item (TRI), é aplicado um pré-teste. Em 2010, ele foi feito em 16 colégios, entre eles o Christus. O MEC afirmou estar seguro de que o vazamento de questões desse pré-teste, ocorrido no Christus, não se repetiu.

A investigação da PF revela, ainda, falhas nos procedimentos de fiscalização do pré-teste, que teria ficado a cargo da própria escola. "A escola não é responsável por essa aplicação, até porque ela tem de estar isenta. O consórcio falhou, não se pode delegar à escola uma função que é de sua responsabilidade", disse a presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios.

Falhas. A Fundação Cesgranrio, que aplicou o pré-teste no Ceará, admitiu falhas. "Houve, por parte de um dos representantes da Cesgranrio no Ceará, uma atitude inadequada quanto ao procedimento usual, que é a cessão de só uma parte da equipe de fiscalização à instituição onde se realizam as provas. Uma possível explicação para essa descabida atitude seria a crença de que a observância a preceitos éticos fosse prevalecer, sobretudo por envolver uma tradicional instituição", disse a Cesgranrio. "Enfatizamos que, no treinamento ministrado pela representante da Cesgranrio enviada a Fortaleza, foi dado o comando de que os aplicadores não poderiam ter vínculo com a instituição, o que infelizmente não ocorreu."

O MEC disse confiar no consórcio Cespe/Cesgranrio para a aplicação do pré-teste e do Enem e defendeu o aprimoramento das questões de segurança nos próximos exames. / COLABORARAM CEDÊ SILVA e LORENA AMAZONAS, ESPECIAL PARA O ESTADÃO.EDU

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