Medeia na intimidade do Holocausto

Em Um Segredo em Família, Claude Miller tenta tornar compreensível o que, de tão terrível, escapa ao entendimento

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2010 | 00h00

No original, o filme de Claude Miller chama-se simplesmente Un Secret, Um Segredo. No Brasil, ficou sendo Um Segredo em Família e é disso mesmo que se trata - uma verdade cruel, um esqueleto no armário que os personagens verbalizam e com o qual são forçados a conviver. Miller, ex-assistente de François Truffaut, herdou do mestre não apenas o roteiro de La Petite Voleuse - que fez com a jovem Charlotte Gainsbourg, Ladra e Sedutora -, mas também, de uma maneira mais geral, o gosto por personagens que fazem seu aprendizado do mundo.

Foram dois encontros com Miller, um em Paris, durante uma das edições anteriores do Rendez-vous du Cinéma Français - o deste ano, que acaba de ocorrer, foi o de número 12 -, e outra no Festival do Rio, onde o diretor foi mostrar Um Segredo em Família. De ascendência judaica, Miller ficou profundamente tocado pelo romance de Philippe Grimbert. Como ele conta, a Shoah - o Holocausto - foi um fantasma da sua herança familiar, mas ele sempre experimentou um sentimento muito grande de desconforto em relação ao assunto. "Todo mundo - enfim, as pessoas de boa consciência - nos ensina o horror que foi a perseguição dos judeus pelos nazistas, mas ninguém nos ajuda a quantificar o absurdo de tudo aquilo. Falamos em 6 milhões de vítimas, mas quem pode contabilizar isso? Eu, pelo menos, tinha a ideia de uma massa informe e o que o livro de Philippe (Grimbert) me deu foi um rosto para essas pessoas. De repente, eu consegui ver aqueles judeus como integrantes da nossa pobre humanidade, gente como a gente. Teria ficado muito mal, comigo mesmo, se Philippe não tivesse me julgado digno de contar essa história."

Em filmes como Ladra e Sedutora e La Leçon de Neige, Claude Miller falou sobre pais e filhos e sobre a maneira como esses últimos precisam administrar a herança dos primeiros. "Não somos responsáveis por aquilo que herdamos de nossos pais", observa o diretor. "Não estou falando de uma herança material, mas do que herdamos, genética e culturalmente. Muitas vezes é uma herança muito pesada para que a gente não se revolte com a perspectiva de ter de carregá-la." Como Miller gosta de dizer, seu trabalho, como diretor de cinema, consiste em revelar o secreto e tornar compreensível o que, às vezes, de tão terrível escapa ao nosso entendimento.

Uma família de judeus na França ocupada pelos nazistas - um homem (Patrick Bruel) que se recusa a carregar a estrela que o identifica, uma mulher (Ludivine Sagnier) que, ao descobrir a traição do marido, faz uma escolha terrível. O segredo de família é uma vingança? "A Shoah, por si só, é uma tragédia, mas no livro de Philippe (Grimbert) ao horror se superpõe mais horror - Medeia, um arquétipo de mãe vingativa, capaz de sacrificar a própria prole ao seu desejo de vingança. E, depois, talvez não seja o sentimento mesquinho de vingança, mas outra coisa, um desejo triste de anulação, possível num mundo sem humanidade, em que a esperança termina por se esvair."

É esse o material que Claude Miller trabalha em Um Segredo em Família. O livro tocou-o pela veracidade dos personagens e situações. Afinal, Grimbert não está desenvolvendo nenhuma abstração. O que ele conta, ficcionaliza, é uma história de sua família. O próprio escritor não apenas cedeu os direitos, mas, de tempos em tempos, visitou o set, acompanhando a filmagem de momentos decisivos. Ao acompanhar sua emoção, Miller via a dele mesmo, projetada como num espelho. A memória da Shoah pelo escritor virou a do diretor e o que ele espera é apanhar o espectador com a intimidade do seu relato.

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