Medicina da USP busca currículo humanista

Alteração na grade antecipa determinação de conselho para toda a universidade

Luciana Alvarez, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) se antecipou ao processo de análise de currículo e modernização do projeto pedagógico pelo qual terão de passar todas as graduações da instituição, segundo resolução aprovada há duas semanas. As mudanças, que começaram há oito anos e serão concluídas em 2020, visam a deixar o curso, antes muito focado nos aspectos técnicos da medicina, cada vez mais humanista.

A partir de 2011, as aulas de atenção primária - que consistem em ajudar nos atendimentos das Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município e no Programa de Saúde da Família (PSF), do governo federal - serão estendidas aos estudantes do 5.º ano. Atualmente, alunos do 1.º e do 3.º ano já têm essa disciplina. "A mudança tem sido gradativa, é, na verdade, uma evolução", afirmou o professor Marcos Boulos, diretor da faculdade. "Todos os anos estamos caminhando. Hoje, a grade tem 30% de conteúdos humanísticos."

Nos últimos anos, os futuros médicos também passaram a ter aulas de filosofia, antropologia e relação médico e paciente.

Segundo o diretor, a reformulação foi debatida com toda a comunidade e tem como meta estar completa em 2020. "Conversarmos com todos os setores, da faculdade e de fora, para formar um profissional compatível com o que se espera. Mas claro que não esperaríamos 2020 para implementar todas as alterações de uma vez", diz.

Boulos explica que o currículo antigo tinha como base um projeto americano do início do século passado, no qual quase todas as faculdades de Medicina se fundamentaram, mas que era voltado para a área científica. "Portanto, não se trabalham as relações humanas. Mas a medicina é uma ciência humana com base na biologia", afirma o diretor.

Empatia. As aulas com um viés humanístico aumentam o envolvimento dos futuros médicos com seus pacientes, contam os estudantes.

Juliana Morano da Silva, de 20 anos, do 1.º ano, relata que as visitas às famílias atendidas pelo PSF foram diferentes após aulas de antropologia. "Na primeira vez tivemos uma visão mais fechada nos aspectos clínicos. Depois, aprendemos a ter mais empatia, a nos preocupar com a situação da família." A grade de Juliana prevê quatro horas semanais de atenção primária.

Os alunos do 1.º ano também montaram e estão aplicando projetos de melhoria para as comunidades atendidas pelas UBS. "Meu grupo fez um projeto de amamentação para incluir os pais. Nossa aula é às terças-feiras, mas marcamos a intervenção para um sábado", diz Juliana. De acordo com a estudante, a disciplina é importante e prazerosa. "É a única aula em que saímos da faculdade."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.