Medicina personalizada usa tecnologia genômica na luta contra o câncer

Frederico e Griselda são os dois "funcionários" que mais trabalham no novo Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, literalmente, processando amostras de DNA numa sala fria, mantida a 14°C, nos fundos do Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do hospital.

HERTON ESCOBAR, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h07

Esses são os apelidos das duas máquinas sequenciadoras que dão apoio às pesquisas de medicina personalizada no laboratório, inaugurado em abril. Mais um sinal de como o avanço superveloz das tecnologias de sequenciamento genético está desencadeando uma lenta, porém consistente, revolução no tratamento do câncer. Outros hospitais, como o A.C. Camargo, também estão investindo fortemente na área.

Cada máquina pode sequenciar o genoma inteiro de uma pessoa em até dez dias. Mas não é exatamente nisso que os pesquisadores estão interessados, apesar de já ter muita empresa por aí vendendo sequenciamento como se fosse uma apólice de seguro contra todo tipo de doença.

As amostras de DNA entregues a Frederico e Griselda são oriundas de células tumorais, nas quais os cientistas buscam mutações específicas que possam servir como marcadores genéticos da doença. Marcadores específicos não só para cada paciente, mas para cada tumor.

"O tumor já é personalizado por natureza. Falta a gente personalizar o tratamento", diz o bioquímico Luiz Fernando Lima Reis, diretor do IEP.

Ele se refere ao fato de que cada paciente tem um tumor diferente de qualquer outro, refletindo uma combinação única de alterações genéticas e de interações bioquímicas do genoma com o organismo e com o ambiente de cada indivíduo.

Em várias situações, já é possível customizar o tratamento dos pacientes com base em características genéticas do tumor. Várias mutações são conhecidas por conferir resistência ou susceptibilidade a determinadas drogas, por exemplo. "Em vez de testar vários remédios, você dá o remédio certo logo da primeira vez", explica Reis.

Ótimo, mas não suficiente. Além de escolher o melhor tratamento, cientistas querem usar a genômica para monitorar a recuperação dos pacientes e garantir que o câncer, uma vez "curado", não retorne mais tarde de forma sorrateira, sem ser percebido.

Um dos projetos do Centro de Oncologia Molecular é usar a genômica personalizada para desenvolver métodos de detecção supersensíveis, capazes de denunciar a presença de tumores "invisíveis" - pequenos demais para serem vistos até numa tomografia. A denúncia, neste caso, não é anônima: vem com nome e retrato falado do suspeito, identificado por meio das mutações específicas daquele tumor.

Imagine o seguinte: um paciente com câncer de reto passa por químio e radioterapia e, ao final do tratamento, uma análise clínica conclui que não há mais vestígios do tumor. Do ponto de vista clínico, ele está curado.

O que seria motivo para comemoração, porém, marca também o início de um dilema. O procedimento padrão é retirar o reto assim mesmo, por precaução. A pessoa pode optar por não operar, mas há sempre o risco de o câncer voltar, pois sempre podem sobrar células tumorais que os exames clínicos não conseguem detectar.

É com esse tipo de caso que os pesquisadores estão trabalhando para desenvolver um método de detecção precoce via sequenciamento. "O objetivo é prever a volta do tumor antes mesmo que ele seja detectável clinicamente", explica a geneticista Anamaria Aranha Camargo, coordenadora do centro e diretora do Instituto Ludwig para Pesquisa do Câncer no Brasil.

Processo. O primeiro passo é obter uma amostra do tumor. O segundo é sequenciar o genoma das células tumorais. O terceiro, e mais trabalhoso, é identificar marcadores genéticos específicos daquele tumor que permitam diferenciá-lo de células sadias. "Tiramos uma impressão molecular do genoma do tumor, como se fosse a impressão digital de uma pessoa doente", compara Anamaria.

Por menor que seja, à medida que um tumor se desenvolve, ele libera DNA e células tumorais na corrente sanguínea, que carregam essa "impressão molecular" da doença. Com as tecnologias modernas de biologia molecular, é possível rastrear e amplificar (produzir milhões de cópias) esse "DNA circulante" do sangue com facilidade. Se a impressão molecular do tumor estiver circulando por ali, é fato que ela será detectada.

Seu grupo, em parceria com a médica Angelita Habr-Gama, está testando a metodologia em amostras de tumor e sangue de sete pacientes que tiveram câncer de reto. Um passou por terapia, continuou com o tumor, e teve de remover o reto. Outro passou por terapia, ficou sem sinais clínicos de tumor, mas optou por retirar o reto assim mesmo. Os outros cinco tiveram resposta positiva ao tratamento e, após vários meses, três continuam sem sinais clínicos da doença e dois tiveram recidiva e foram obrigados a operar.

Com o apoio de Frederico e Griselda - e de uma equipe de biólogos e bioinformatas -, Anamaria já mapeou as translocações dos sete pacientes e espera validar os dados nas próximas semanas. Em seguida, vai procurar por essa "impressão digital" nas amostras de sangue (coletadas antes e depois do tratamento) e ver se os resultados moleculares batem com o que foi observado clinicamente. "A avaliação da eficácia do tratamento é fundamental nessas situações", diz. "Com o custo do sequenciamento caindo cada vez mais, já é hora de começarmos a fazer isso."

A metodologia está sendo testada em câncer de reto, mas tem potencial para ser aplicada em uma grande variedade de tumores. Essencialmente, em qualquer situação em que haja risco de recidiva. E também para detectar a presença de metástases - tumores secundários, derivados do tumor principal, que podem permanecer escondidos em outros órgãos depois que o foco da doença foi eliminado.

Uma vez registrada a impressão molecular do suspeito, basta procurar por ele - ou por seus filhos - numa amostra de sangue. "Se o DNA tumoral estiver no sangue, pode procurar que em algum lugar ainda tem tumor", conclui Reis.

Ou não. No caso do paciente que optou por retirar o reto mesmo sem ter mais sintomas clínicos da doença, por exemplo, uma análise subsequente do órgão removido confirmou que o tumor realmente havia desaparecido - ou seja, a cirurgia não era necessária e poderia ter sido evitada se o teste molecular já estivesse disponível.

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