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Médicos versus mídia

Um Parlamento impotente, há mais de um ano, para eleger um novo presidente da república; um governo de unidade paralisado pelas dissensões entre os dois blocos políticos principais; as repercussões locais do conflito na Síria, quer seja o fluxo de refugiados ou os combates endêmicos que opõem o Hezbollah a grupos jihadistas na fronteira sírio-libanesa.

Issa Goraieb , O Estado de S.Paulo

14 Junho 2015 | 03h00

Como se vê, não faltam motivos de preocupação aos libaneses. E, no entanto, o que apaixona e divide neste momento a opinião pública libanesa é um caso que não tem estritamente nada de político ou militar. Trata-se, na verdade, de um caso médico cuja infeliz vedete é uma menininha de oito meses que precisou sofrer a amputação de seus quatro membros atingidos por necrose cutânea, uma variedade de gangrena. A polêmica em torno dessa tragédia envolveu as mídias e a Ordem dos Médicos. Ela não poupou nem mesmo o Judiciário, provocando um verdadeiro debate nacional que se transformou em um conflito social.

No mês passado, a pequena Ella Tannous, que sofria de uma forte febre, foi tratada com antipiréticos por seu pediatra. O estado da criança se agravou rapidamente, contudo, e ela precisou ser internada. Ao fim de um diagnóstico minucioso, revelou-se que a criança estava infectada pelo estreptococo A, um micróbio comum que pode invadir a pele e os tecidos subcutâneos com a produção de toxinas. A gangrena dérmica aguda resultante acabou tornando necessária a ablação das partes atingidas.

Os pais da menininha acusaram de negligência o médico que atendeu a criança, o doutor Issam Maalouf, diplomado por renomadas universidades americanas e possuidor de excelente reputação. Ocorre que várias cadeias de TV, movidas pelo sensacionalismo, se apropriaram dessa legítima dor e ,declarando-se escandalizadas, condenaram sem apelação o pediatra sem aguardar as conclusões de alguma investigação médica. 

De maneira absolutamente intempestiva, o Ministério Público ordenou a prisão, em caráter preventivo, do doutor Maalouf que, após alguns dias de detenção, deverá ser libertado sob fiança nos próximos dias. Ele será inquirido por uma comissão mista formada por juízes de instrução e profissionais de medicina.

Nesse ínterim, a Ordem dos Médicos decretou uma greve de 24 horas em sinal de protesto e numerosos membros do corpo médico se manifestaram de camisa branca, com as mãos simbolicamente algemadas e entoando o slogan “Eu sou Issam”. O presidente da organização condenou, em termos muito duros, o comportamento irresponsável das mídias que se erigiram em justiceiras com a finalidade malsã de aumentar suas audiências. Ele fustigou também o ministro da Saúde e o Judiciário, censurando-lhe a contravenção das regras, mecanismos previstos na lei e, com isso, comprometendo a carreira de um médico que agiu de boa-fé, nos limites de sua competência científica.

Às críticas, as redes de televisão em questão responderam acusando a máfia dos médicos de encobrir sistematicamente as falhas profissionais cometidas por seus membros. O incrível resultado desse bate-boca animado é uma guerra corporativa entre médicos e imprensa. Um fenômeno como esse jamais havia sido observado neste país, onde uma gangrena de outro gênero atingiu, uma após outra, as instituições estatais, chegando até as mais relevantes da sociedade civil.

É JORNALISTA DO ‘L'ORIENT-LE JOUR’, DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO ‘ESTADO’ 

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