Medvedev diz que vai seguir 'trilha de Putin'

Novo presidente é eleito com 70% dos votos; Putin será primeiro-ministro.

Márcia Freitas, BBC

03 de março de 2008 | 05h40

O presidente eleito na Rússia, Dmitry Medvedev, prometeu continuar as políticas adotadas por Vladimir Putin."(As minhas políticas) serão uma continuação direta da trilha seguida por Vladimir Putin", disse Medvedev, o candidato governista, que levou sete de cada dez votos válidos depositados nas urnas nas eleições de domingo.Com 99,45% dos votos apurados, os resultados davam 70,23% dos votos para Medvedev, 17,76% para Gennady Zyuganov, do Partido Comunista, 9,37% para Vladimir Zhirinovsky, do Partido Liberal Democrático e 1,29% para o candidato independente Andre Bogdanov.Medvedev confirmou o nome de Vladimir Putin para primeiro-ministro, mas afirmou que o lugar do premiê "é na Casa Branca" (se referindo a um prédio fora do Kremlin). Analistas dizem que ainda há incertezas em relação ao futuro da política russa com um novo presidente relativamente pouco conhecido no Kremlin e um primeiro-ministro do porte de Vladimir Putin tocando o dia-a-dia do Executivo. A posse de Medvedev será no dia 7 de maio. ComparecimentoSegundo a comissão eleitoral, o comparecimento às urnas foi de quase 68%, acima do índice registrado nas eleições parlamentares de dezembro, de 63,71%.Mas a disputa também foi marcada por acusações de irregularidades e uma forte campanha para levar os eleitores às urnas.Há relatos de que funcionários teriam sido pressionados pelos patrões a votar.Além disso, em muitos locais, os eleitores receberam todo tipo de incentivo, desde comida barata a ingressos de cinema, para participar. Isso porque umbaixo comparecimento poderia colocar em dúvida a legitimidade da vitória de Medvedev.O candidatos Zyuganov e Zhirinovsky contestaram os resultados. E o poucos observadores independentes que acompanharam as eleições também se disseram preocupados, por exemplo, com o índice extraordinário de mais de 90% de comparecimento registrado em algumas regiões. O Kremlin nega qualquer irregularidade.A coalizão Rússia Unida, que reúne grupos de oposição e conta com a participação do ex-campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, disse que irá realizar uma passeata em protesto contra as eleições neste domingo nas ruas de Moscou e São Petersburgo nesta segunda-feira. MedvedevDmitry Medvedev chega à Presidência russa aos 42 anos depois de trabalhar de perto ao lado do ex-presidente Vladimir Putin desde os anos 90.A vitória foi possível, segundo analistas, graças à alta popularidade de Putin, que deixa o poder depois de oito anos. A Constituição russa não permite um terceiro mandato consecutivo.Apesar da saída de Putin do Kremlin, sede da Presidência, muitos se perguntam quem estará de fato no comando do país.Mas essa é apenas uma das questões desse período pós-eleição. Outra é se Medvedev terá a mesma sorte de Putin, que governou em um período de alta da demanda e dos preços do petróleo e do gás, produtos que o país têm em abundância. E se ele terá condições de enfrentar os desafios que tem pela frente.Petróleo e inflaçãoA economia da Rússia é altamente dependente da produção e demanda de petróleo e gás, que representam cerca de 60% das exportações. Por isso, a diversificação da economia será um dos principais desafios de Medvedev."Para isso são necessárias reformas profundas, mas as reformas são normalmente impopulares. E o tempo dirá se ele estará disposto a encarar esse desafio", afirma o correspondente do jornal espanhol El País na Rússia, Rodrigo Fernández.Para o analista internacional Anatoly Sosnovsky, mais difícil ainda será reformar a máquina do Estado, ainda burocrática, corrupta e ineficiente.Apesar do chamado "boom" econômico vivido pela Rússia durante o governo de Putin, Medvedev herda uma economia com uma inflação crescente, de cerca de 12%. No último ano, o preço de alguns produtos chegou a aumentar 50%. Além disso, a desigualdade social tem escalado e, em locais afastados das grandes cidades, muitos russos ainda enfrentam dificuldades como falta de aquecimento e de água, que não são incomuns.O novo presidente diz que quer reduzir a participação do Estado na economia e reformar empresas estatais para que elas continuem competitivas. No entanto, críticos afirmam que, como presidente da Gazprom, ele conseguiu implementar poucas reformas.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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