Melhora diagnóstico de câncer de útero

Situação nas Regiões Norte e Nordeste ainda é precária; na fase avançada, tratamento fica mais difícil e, por isso, mortalidade aumenta

Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Em quase todas as capitais brasileiras, a maioria dos casos de câncer de colo de útero costuma ser diagnosticada em fase avançada, quando o tratamento é mais difícil. Mas informações do levantamento Câncer no Brasil - Dados dos Registros de Base Populacional, divulgado ontem, mostram que o diagnóstico precoce da doença está se tornando mais comum.

O estudo, coordenado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), no Rio, foi apresentado em conjunto com o Plano de Ação para Redução da Incidência e Mortalidade por Câncer do Colo do Útero, iniciativa do Ministério da Saúde para melhorar o diagnóstico, especialmente nas Regiões Norte e Nordeste.

Há uma grande disparidade entre os Estados brasileiros. Em Manaus (AM), por exemplo, há cerca de 50,59 casos diagnosticados em estágio avançado - quando o tumor já se tornou invasivo - para cada grupo de 100 mil mulheres. O número de diagnósticos na fase inicial é de apenas 27,78 no mesmo grupo populacional.

Em São Paulo, a diferença é bem menor. Há 16,47 casos em estágio avançado e 12,49 casos na fase inicial para cada grupo de 100 mil mulheres.

O diretor-geral do Inca, Luiz Antonio Santini, afirma que a diferença pode ser explicada pelo acesso aos serviços básicos de saúde. "Em tese, 100% dos casos podem ser curados quando diagnosticados no momento adequado", aponta Santini. O câncer de colo de útero pode ser diagnosticado de forma precoce com o exame de papanicolau, que já existe há mais de 50 anos.

Paulo Hoff, diretor-clínico do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), também aponta o tabu dos exames ginecológicos como um possível empecilho para o aumento no número de diagnósticos nas regiões mais pobres.

O levantamento do Inca reúne dados de 2000 a 2005. A comparação com o relatório anterior, divulgado em 2003 com dados de 1995 a 2000, mostra que houve uma melhora em várias cidades. Mesmo em Manaus, a incidência de formas invasivas da doença diminuiu de 63,71 para 50,59. Já o número de diagnósticos precoces cresceu de 19,49 para 27,78.

"Isso mostra que os programas para diminuir a ocorrência de câncer de colo de útero são eficazes", afirma Marceli Santos, técnica da coordenação de prevenção e vigilância do Inca.

Ela participou da elaboração do relatório e recorda que em duas capitais o número de casos diagnosticados na fase inicial da doença já supera os diagnósticos tardios: Goiânia e Curitiba. "Nas duas, há bons programas para aumentar o acesso ao papanicolau", aponta a pesquisadora.

"O câncer de colo de útero está associado à infecção pelo vírus HPV", recorda Santini, para quem ainda não é o momento de se adotar a vacina contra o HPV no Programa Nacional de Imunização (PNI). "O custo para vacinar todas as meninas de 9 a 12 anos seria quatro vezes o orçamento destinado para todo o PNI. Além disso, são necessários mais estudos populacionais, pois a vacina é muito nova."

Luisa Lina Villa, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, discorda do cálculo. "O governo não pagaria o mesmo que as clínicas, pois compraria um volume grande de vacinas. Haveria uma diminuição drástica dos custos", aponta a cientista, utilizando o México e o Panamá como exemplos de países que vacinaram suas populações contra o HPV. Para Hoff, conviria esperar alguns anos para o barateamento natural da imunização.

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