Melhores do ano (1)

Na coluna sobre os melhores livros do ano passado escrevi que "mais uma vez o maior número de destaques ocorre em não-ficção, especialmente história, crítica e biografia, e mais uma vez as reedições chamam atenção, sobretudo em romances". Em 2009 a ficção novamente não se destacou numericamente, mas os livros de ciência, sobretudo por causa do bicentenário de Charles Darwin, agora merecem menção especial. Lemos A Ilha de Darwin, de Steve Jones, A Causa Sagrada de Darwin, de Adrian Desmond e James Moore, e O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, que aqui trocou o panfletarismo antirreligioso por uma ampla e hábil explicação da Evolução como fato histórico, não apenas como teoria ou hipótese. Nos EUA, o jornalista cultural Adam Gopnik, em paralelo com outro aniversariante, Abraham Lincoln, tentou escrever sobre como Darwin mudou não apenas nosso conhecimento da natureza, mas ajudou a fundar a mentalidade moderna, com sua desconfiança de dogmas e sistemas.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h00

Não foram apenas livros sobre Evolução. A tradução brasileira de um livro de 2006, Em Busca da Memória, do octogenário Eric R. Kandel, é um espaço a menos na vasta lacuna editorial que o Brasil sofre no tema. Kandel, Nobel de 2000, transformou a concepção da memória humana com seus estudos fisiológicos, em especial na distinção do mecanismo da memória de curto prazo e longo prazo. "A arquitetura do cérebro de cada pessoa é única", escreve ele, em seguida demonstrando como os genes também podem ser influenciados por eventos no mundo externo. Estímulos ambientes podem ativar "interneurônios modulatórios" que modificam a estrutura e a função das sinapses; no caso da memória de longo prazo, que requer a síntese de novas proteínas, há mesmo uma mudança anatômica. E Kandel propõe a reaproximação entre o estudo da biologia e a interpretação do indivíduo, como o próprio Freud queria (vide outra tradução do ano, Da Neurologia à Psicanálise, de Lynn Gamwell e Mark Solms).

Um livro que parte da matemática e mostra como se usa mal a estatística, O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, fez merecido sucesso no Brasil. E The Age of Wonder, de Richard Holmes, mostrou como escritores e artistas partilharam crenças e medos a respeito das descobertas e invenções do século 18, ao contrário da visão convencional do romantismo como anticientífico. Dificilmente o livro será traduzido por aqui tão cedo, como tantos outros grandes livros do setor publicados nas últimas décadas. Sempre digo, aliás, que os livros de ciência e arte são os mais negligenciados pelo mercado brasileiro, especialmente quando exigem um investimento editorial maior, por serem grandes, ilustrados e sofisticados.

Então o leitor interessado nesses assuntos e que tenha estudado outras línguas precisa recorrer às amazons da internet para importar, por exemplo, obras extraordinárias como Paintings in Proust, de Eric Karpeles, espécie de "museu imaginário" das pinturas citadas nos romances de Em Busca do Tempo Perdido, e o catálogo Titian Tintoretto Veronese, que mostra o diálogo e a rivalidade entre esses gênios do Renascimento veneziano. Já a chance de um tesouro verbal como L"Art de la Préface - que tem Claudel sobre Homero, Gide sobre Montaigne, Camus sobre Chamfort e Valéry sobre Stendhal, entre outros - deve ser maior. Afinal, bons livros de crítica literária foram editados aqui: A Literatura em Perigo, de Todorov, que critica o estruturalismo que ajudou a lançar; Assunto Encerrado, de Italo Calvino; Sobre os Escritores, de Elias Canetti; ou Cultura do Romance, primeiro volume da ambiciosa organização de Franco Moretti. Tomara que aconteça o mesmo com El Viaje de la Ficción, em que Vargas Llosa analisa a obra do grande Juan Carlos Onetti, e Steiner at The New Yorker, com as resenhas e ensaios do também octogenário George Steiner.

E não só a crítica literária deixou um pouco o antigo esquecimento das editoras brasileiras. Robert Stam analisando as adaptações em A Literatura Através do Cinema, Alex Ross navegando pelas tensões entre vanguarda e música popular em O Resto É Ruído, Sartre viajando com Tintoretto em A Rainha Albermarle ou O Último Turista, Peter Gay examinando o Modernismo com algumas falhas e o grande acerto de defini-lo como arte herética - eis alguns outros títulos de primeira. Mas The Art Instinct, de Denis Dutton, e Beauty, de Roger Scruton, que tentam encontrar parâmetros para o que julgamos belo na arte e na natureza, não sei se terão a mesma sorte. Ao menos o jornalismo literário tem sido lembrado, com títulos de Martha Gellhorn, Paul Theroux, James Agee (que agora precisa ser lembrado como o grande crítico de cinema que foi) e o fluente Z, A Cidade Perdida, em que David Grann relata a expedição amazônica do Coronel Fawcett que refez há pouco.

Grandes personagens têm ficado mesmo para as biografias, gênero ainda em alta. Terminei de ler Padre Cícero, de Lira Neto, muito satisfeito: ele nos mostra em detalhes o que se passava no sul do Ceará quando esse misto de clérigo e coronel passou a defender costumes antes proibidos como as romarias em público, atraindo para si fiéis entre os deserdados pela Igreja e pela sociedade. O bom biógrafo mostra defeitos justamente porque faz um esforço de compreensão. Já Clarice, de Benjamin Moser, que ainda não terminei, começa com reveladora pesquisa factual, sobre as sofridas raízes ucranianas de Clarice Lispector, mas depois parece se converter em ensaio literário, em sintonia com o misticismo da escritora, e se afasta de questões polêmicas como suas relações com mulheres. Em Euclides na Cunha - Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, a análise também se sobrepõe à narrativa. Sim, combinar ambos, como fizeram um Richard Ellmann (Joyce) ou um Lewis Lockwood (Beethoven), é mesmo difícil, mas fundamental quando se trata de grandes criadores.

E a ficção? Pela superficialidade do personagem narrador, mais próximo da sociologia de Gilberto Freyre do que da sutileza de Machado de Assis, não admirei Leite Derramado, de Chico Buarque, como admirei Budapeste, mas suspeito que vá arrebatar a maioria dos prêmios. Gostei de contos de Milton Hatoum em A Cidade Ilhada, embora não esteja à altura dos romances. Novamente me deleitei com Philip Roth, com Indignação (também influenciado por Machado) e The Humbling (apesar de não ir bem naquilo que faz como poucos, as cenas de sexo) - Roth que há 50 anos produz em alta qualidade e quantidade. E gostei acima de tudo de Terras Baixas, de Joseph O"Neill, uma história íntima multicultural em Nova York. Li ainda os mais recentes de Thomas Pynchon e John Banville, mas estão abaixo de seu padrão.

Leio, por sinal, muita coisa que opto por não comentar, principalmente de ficção brasileira, por não valer a pena. Tratei de mais de 80 livros neste ano, mas um terço são reedições ou edições atrasadas de clássicos ou bons livros há muito publicados no exterior. Do ensaísmo histórico de Tocqueville (O Antigo Regime e a Revolução) ao belo livro sobre o fascismo de Mussolini escrito por Donald Sassoon, de Tolstoi (A Felicidade Conjugal) a romances de Bernhard e Bolaños, do teatro de Sófocles (Filoctetes) à Obra Completa de Euclides, revista e ampliada - passando pelas cartas de Van Gogh e Rimbaud, que comentarei em breve -, vivemos muito do passado. Mas, quando o passado está vivo, como no caso de todos esses citados, não há nada de errado nisso.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Vi matérias nesta semana sobre uma pesquisa do Ipea que mostra que os Estados menos desenvolvidos do Brasil são justamente aqueles que têm maior proporção de funcionários públicos por habitantes. Mas o mesmo Ipea não havia dito que o Estado brasileiro é "raquítico"? Pelo jeito, então, é melhor assim... O que o desenvolvimento pede é um Estado eficiente, e não o desperdício sistemático das riquezas produzidas pela sociedade.

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Por falar em desenvolvimentismo, a performance da ministra e candidata Dilma Rousseff na conferência do clima em Copenhague não teve nenhuma desenvoltura. Ela atropelou a fala do ministro Carlos Minc, cometeu gafes, mostrou pouca familiaridade com o tema e pintou de coitadinho o Brasil, quinto maior poluidor do planeta, dizendo que os emergentes não devem contribuir para um fundo de combate ao aquecimento global.

A propósito, é importante dizer que há distorções para os dois lados da questão. Assim como ambientalistas exageram a relação causal entre temperatura do planeta e queima de carbono, anunciando catástrofes, há o equívoco inverso de querer negar o aquecimento, suas causas parciais e seus efeitos. Toma-se, por exemplo, o tamanho da calota polar nos últimos três anos como demonstração de que não existe o degelo do Ártico; mas a curva atravessa um espaço amostral de 70 anos e atinge antes a espessura do que a área da superfície. A temperatura da água sobe não porque o gelo derrete, mas porque a menor proteção das geleiras expõe mais os oceanos aos raios solares.

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