Mercado é cético em relação a novas casas

Na 1.ª remoção das Espraiadas, em 1995, só 5% foram para residencial

, O Estadao de S.Paulo

13 Dezembro 2009 | 00h00

Quando o prefeito Paulo Maluf decidiu iniciar a primeira etapa da construção da Avenida Águas Espraiadas, em 1995, houve rebuliço no mercado imobiliário. Empresários disseram que iriam construir mil unidades habitacionais para alojar as cerca de mil famílias que deixariam a região.

Não foi o que aconteceu. Somente cerca de 5% dos moradores expulsos das Águas Espraiadas ganharam moradias no Barro Branco, em Cidade Tiradentes, na zona leste, a cerca de 30 quilômetros do local onde moravam. A maioria acabou mudando para outras favelas, depois de receber R$ 1,5 mil em cheque. A remoção acabou aquecendo o mercado informal de barracos. Parte dos moradores foi para a Favela Real Parque, do outro lado da Marginal, ou para Paraisópolis, favela que começou a formar-se nos anos 40, no Morumbi.

Outro grupo acabou indo viver ao redor das Represas do Guarapiranga e Billings, áreas de proteção ambiental. Caminhões da Prefeitura ajudaram na remoção dos pertences dos moradores. Uma favela da Billings recebeu o nome de Jardim Edite 2. "Existem motivos históricos que nos levam ao ceticismo. Já houve antigamente promessas que não foram cumpridas. Caso a atual gestão cumpra o que está dizendo e mantenha os moradores no local onde eles vivem, será uma nova era para a política de moradia em São Paulo", afirma a arquiteta Raquel Rolnik, relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

A Secretaria Municipal da Habitação afirma que aprendeu com os erros do passado. Os recursos vindos da Operação Urbana Águas Espraiadas, aprovada no ano de 2001, garante fôlego para o investimento nas novas moradias. Além disso, a lei estabelece que na região devem existir espaços voltados para a construção de habitações populares. São as chamadas Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis).

São nessas áreas que serão construídas as 4 mil moradias a serem licitadas com as obras. Existem atualmente cerca de R$ 400 milhões em caixa para serem investidos em obras na região das Águas Espraiadas. Para completar os recursos, a Prefeitura precisa ainda vender cerca de 2,5 milhões de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs), títulos municipais negociados com a iniciativa privada para que ela construa acima da metragem mínima permitida pela Lei de Zoneamento. Caso consiga colocar os títulos a R$ 600 cada um no mercado, como espera, conseguirá juntar mais R$ 1,5 bilhão para as obras.

O arquiteto Paulo Bastos, autor do projeto urbanístico usado para a fase de pré-qualificação para a licitação das obras, diz que a Prefeitura estuda a possibilidade de contratar escritórios de arquitetura que se encarreguem de criar projetos habitacionais mais leves para a região. "Não é porque o prédio é popular que precisa seguir o padrão tradicional dos conjuntos habitacionais", diz.

BAIRRO POPULAR

O mercado imobiliário está agitado com o novo projeto. O diretor de Legislação Urbana do Secovi (sindicato da habitação), Eduardo Della Manna, afirma que o complexo de túnel e parque será a primeira requalificação que garante melhorias urbanísticas e ambientais, capazes de criar um novo eixo de desenvolvimento para a cidade.

Está prevista a chegada na região de um veículo leve sobre trilhos (VLT), que vai fazer a ligação com a linha 4 do Metrô. Ao contrário do Campo Belo, que nos últimos anos viu o aparecimento de espigões de alto padrão no bairro, a expectativa dos investidores é de que a região se transforme em um reduto mais popular. "Com os financiamentos mais baratos que foram colocados à disposição pelo programa Minha Casa, Minha Vida, creio que a tendência é construir prédios para uma faixa de renda mais baixa", diz Della Manna.

Lideranças de moradores do bairro do Campo Belo, vizinho ao novo complexo urbanístico que está sendo construído, reclamam que os bairros originais ainda não viram nenhum sinal de melhorias desde que a Operação Urbana Águas Espraiadas foi aprovada. O presidente do Movimento de Moradores do Bairro de Campo Belo, Antônio Cunha, afirma que o bairro vem ficando cada vez mais degradado. "Eles usam os recursos da Operação Urbana só para a melhoria da avenida e criação de grandes elefantes brancos, como a Ponte Estaiada (Ponte Octavio Frias de Oliveira). Nenhum centavo foi investido em melhorias do Campo Belo. Só perdemos com a operação." BRUNO PAES MANSO

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