Meus e-mails e as cartas de Einstein

Tenho a impressão de que minha vida mudou desde que surgiu o e-mail. Todos os dias a caixa postal transborda com mensagens a serem lidas. Um bom número pede resposta, o que é feito com rapidez e de maneira quase telegráfica. Muitas vezes troco diversas mensagens por dia com diversos interlocutores.

Fernando Reinach*, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2009 | 00h00

Imagino que antigamente era diferente. As pessoas recebiam longas cartas, cuidadosamente compostas, que demoravam dias ou semanas para viajar entre interlocutores. As fotos da época mostram pessoas compondo suas cartas com uma caneta tinteiro ou uma máquina de escrever. A impressão é que houve uma revolução e que nosso padrão de comportamento como usuários afobados do correio eletrônico é essencialmente diferente da calma e elaborada atividade de escrever cartas. Mas será que isso é verdade? Utilizando métodos estatísticos, um grupo de cientistas, que inclui pesquisadores do Inpe em São José dos Campos, demonstrou que um único modelo matemático explica o padrão de atividade dos escritores de cartas e de e-mails.

Foi obtida toda a correspondência enviada por usuários de e-mail e pessoas que escreviam cartas. Para cada item foi determinado quando ele foi enviado e o intervalo entre o envio de cada mensagem. Analisar a atividade de 400 usuários de e-mail foi fácil. O sistema de correio eletrônico armazena datas e horários juntamente com cópias de todos os e-mails enviados. Mas como obter dados equivalentes para pessoas que se correspondiam por cartas? A solução foi estudar detalhadamente toda a correspondência trocada por cientistas, filósofos e artistas ao longo de suas vidas. Isso foi possível porque a correspondência dessas pessoas está cuidadosamente arquivada. Entre as 16 pessoas cuja correspondência foi analisada estão Darwin (6.785 cartas escritas entre 1822 e 1882), Einstein (10.319 cartas escritas entre 1896 e 1955), Freud (3.130 cartas enviadas entre 1872 e 1939) e outras 13 pessoas, como Bacon, Engels, Proust e Hemingway.

Comparando a frequência com que as pessoas escrevem cartas ou e-mails e como essa atividade está distribuída ao longo dos dias, das semanas e de diferentes épocas da vida, foi possível descobrir que tanto usuários de e-mail quanto escritores de cartas possuem o mesmo padrão de atividade. Quando se sentam para lidar com a correspondência, em geral escrevem múltiplas mensagens. O tempo gasto escrevendo varia ao longo do dia de maneira semelhante e o mesmo ocorre ao longo da semana. Finalmente a frequência com que escrevem é proporcional ao número de mensagens recebidas em cada fase da vida (a análise cuidadosa do comportamento de Einstein é muito interessante).

O comportamento entre os dois grupos é tão semelhante que os pesquisadores conseguiram construir um modelo matemático que explica tanto o comportamento dos usuários de e-mail quanto o dos escritores de carta. O que varia entre pessoas de cada grupo e entre os dois grupos são uns poucos parâmetros do modelo. Do mesmo modo que o movimento de uma bola de tênis e de um planeta pode ser descrito por um único modelo matemático, o que os cientistas descobriram é que o padrão de atividade desses dois grupos de pessoas também pode ser explicado por um único modelo.

O resultado é inesperado e sugere que, qualquer que seja a maneira como nos correspondemos, nosso padrão de atividade é regido por leis que independem do método utilizado para trocar mensagens. Meu consolo é imaginar que a maneira como organizo meu turbilhão de e-mails não é muito diferente da solução encontrada por Einstein para lidar com sua correspondência.

* fernando@reinach.com

Biólogo

Mais informações: On universality in human correspondence activity. Science, vol. 325

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