Mil e um sabores nas vielas do souq

Falafel frito na hora, tâmaras que desafiam o deserto, doces dignos de um grão-vizir, pães-folha, babaganoush, homus, yalangee, o frescor do sumac... Nas velhas ruas de Damasco e Alepo, a eterna festa da culinária síria

Janaina Fidalgo,

24 de junho de 2010 | 09h11

Cachos. Em Palmira, na Síria, tâmaras secam ao ar. Foto: Eduardo Asta/Arquivo Pessoal

 

 

Você entra no souq de Damasco porque quer ir comer num restaurante bem recomendado. No meio do caminho, mais tortuoso que longo, perde-se pelas ruelas. Placas? Para que, se nem identificar o alfabeto você consegue?

 

Vê um pão-folha finíssimo sendo assado e quase não resiste ao desejo de pedir um ao notar bolhas crocantes levantando da massa. Ao virar na quadra seguinte, é tomado pelo aroma cítrico do sumac. Vê uma lata cheia de snoubar (pinoli) e outras lotadas de figos secos e tâmaras. Ai, que vontade de parar, comprar um pouco e sair beliscando pela rua!

 

Com tantas distrações, o nada discreto vendedor de chá vestido de Aladim quase passa batido. Mas não há como não reparar no rapaz franzino e barbudo modelando e fritando falafel. Você até tenta se convencer de que a vigilância sanitária não aprovaria aquele lugar. Mas depois agradece por sua autocensura ter falhado. Do contrário, teria perdido aqueles deliciosos bolinhos crocantes e perfumados, envoltos em pão sírio fresquíssimo. Vai saber quando você voltará à Síria.

 

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A essa altura, o tal restaurante bem recomendado terá de ficar para o jantar. Hora de procurar uma sobremesa. E isso é um problema se você parar no Mohammed Hosni Baleed. Corre o sério risco de perder a noção da hora, imerso entre as tentadoras vitrines de doces embalados individualmente. Tem de fruta confitada. Tem de frutas secas. Tem de castanhas. E tem de tudo isso junto. A maioria com um toque de miski ou de água de flor de rosas. Antes de montar caixas para dar à família, compre um de cada para provar. É melhor que desagradar aos presenteados.

 

À noite, percorra novamente o souq até encontrar o restaurante mencionado no início, o Elissar. Não subestime a pequena e modesta porta que o separa da rua. Ao cruzá-la, um átrio grande e bonito surgirá. Talvez você se intimide pelo ambiente elegante, frequentado pela elite síria e até pelo presidente Bashar Assad - nenhum lugar é perfeito. Mas a conta será bem mais barata do que você imagina (US$ 30 num jantar para dois está bom?). Prove o homus de textura imbatível, o babaganoush, o yalangee (charutinho de folha de uva) e o muhammarah (pasta de pimenta vermelha e nozes).

 

Baklava. Os doces do Ali Usta, em Istambul. Foto: Eduardo Asta/Arquivo Pessoal

 

 

Vá também ao Al Khawali e entregue-se à sedução do pão. Um senhor simpático modela as massas sobre uma "almofada" redonda e cola uma por uma à parede do forno. Em segundos, os pães estufam e ficam prontos. Chegam quentinhos à mesa. Se precisar de um álibi para justificar a vontade de passar o jantar a pão fresco, peça quibe na coalhada, para ter onde molhá-lo. E não espere encontrar bebidas alcoólicas ali - a maioria dos restaurantes da Síria é halal.

 

Em Alepo, com suas ruelas de trânsito inacreditavelmente caótico, pedestre não tem vez. Mas, curiosamente, é também ali que encontrará as pessoas mais atenciosas. Não estranhe se for chamado para tomar um chá. Alguns fazem isso como pretexto para atraí-lo às lojas, é verdade. Outros tantos, só pelo prazer de conversar - e talvez contar histórias de suas desventuras amorosas.

 

É também no souq de Alepo, na lateral da mesquita principal da cidade, que você encontra um suco de tangerina com grandes chances de entrar para a sua lista dos sabores inesquecíveis. Sem exagero.

 

E, se for visitar as ruínas de Palmira, atente para os cachos amarelados secando nas varandas. São tâmaras. Elas nascem assim, penduradas, como o açaí. Prove quantas puder, se possível em diferentes estágios de maturação. É quase como comer jabuticaba no pé. Tem outro sabor.

 

 

NÃO PERCA!

 

O homus e o babaganoush

Do Elissar - 00/xx/963/11/542-4300

 

Os doces confitados

Do Mohammed Hosni Baleed - 00/xx/963/21/224-2347

 

O pão sírio e o quibe na coalhada

Do Al Khawali - 00/xx/963/21/222-5808

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