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Ministérios paralelos

Na essência não foi errada a estratégia do presidente interino Michel Temer de dividir o ministério entre os que formulam propostas para tirar o Brasil do atoleiro econômico e os que dariam respaldo político para aprovar tais propostas (nenhuma fácil) no Congresso. No regime híbrido em que vivemos, um tanto presidencialista e um tanto parlamentarista, os dois ministérios naturalmente se complementariam. Só que, em poucos dias de gestão, dois ministros já caíram e outros estão ameaçados, esquivando-se de denúncias de corrupção.

Suely Caldas, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2016 | 03h06

Obviamente o que deu errado não foi a estratégia, mas a escolha das pessoas. Enquanto na economia o ministro Henrique Meirelles conseguiu reunir uma equipe de talentos, competente, respeitada, experiente e preparada para dar impulso à economia, no plano político Temer falhou, não teve o cuidado de filtrar nomes, afastar aqueles cujo passado vai contra o que hoje as ruas mais reclamam: ética na gestão pública. Vá lá que no Congresso e nos partidos poucos se salvam, é difícil encontrar gente com perfil técnico e passado limpo, mas Temer exagerou, trouxe para o governo até investigados pela Polícia Federal na Lava Jato. Com isso se desgastou, perdeu pontos na construção da confiança em sua gestão. A ideia dos dois ministérios paralelos não é ruim, mas os dois precisam se ajudar: o político não contaminando o econômico e este fazendo o dever de casa com ações que reforcem a retomada do crescimento e fortaleçam a defesa política do governo. 

Fortes alavancas de investimentos, a Petrobrás, o BNDES e o Banco do Brasil (BB) receberam esta semana novos presidentes. Pedro Parente, Maria Silvia Bastos e Paulo Caffarelli reúnem qualidades para executar um trabalho sério e direcionado ao crescimento econômico, mas Temer e seus amigos políticos (dentro e fora do PMDB) não podem atrapalhar com indicações partidárias para cargos em diretorias e subsidiárias, que precisam de quadros técnicos e qualificados, não de políticos para servir seus partidos. Seria um retrocesso repetir o loteamento de Lula e Dilma, que espalhou a corrupção e desmoralizou a gestão pública.

Temendo a avidez dos políticos em busca de cargos, Maria Silvia não perdeu tempo e, no ato da posse, se apressou em anunciar os novos diretores do BNDES, todos de perfil técnico. Pedro Parente nem esperou a posse: na primeira conversa com Temer condicionou a aceitação da presidência da Petrobrás à blindagem de indicações políticas e fez questão de deixar registrada essa condição à imprensa. O problema maior está nas 30 diretorias e subsidiárias do BB, fartamente usadas por Lula e Dilma para distribuir favores aos mesmos políticos, aos quais interessa a Temer agora agradar. Além de uma gorda economia salarial, Caffarelli faria bem ao País e ao banco se eliminasse boa parte dessas diretorias. 

Ainda não chegou a vez do setor elétrico e os nomeados por Dilma continuam à frente das empresas. Sob pressão dos partidos, Michel Temer já avisou que aceitará indicações políticas desde que sejam técnicos, experientes e qualificados. São quase 40 cargos de primeiro escalão na Eletrobrás e subsidiárias geradoras, estatais que passaram a viver o inferno desde janeiro de 2013, quando a ex-presidente Dilma decidiu reduzir a tarifa de energia elétrica com sua caneta autoritária. Há mais de três anos a situação financeira das empresas só piora, as dívidas crescem, os prejuízos aumentam nos balanços, a corrupção chegou à Lava Jato e a Eletrobrás acabou eliminada dos negócios na Bolsa de Nova York. Para se recuperar, elas precisam de gestores competentes, sérios e firmes, que rejeitem as demandas dos políticos. 

Lula inaugurou um método de loteamento de cargos nas estatais que atende às exigências listadas por Temer: o partido político busca e alicia funcionário na própria empresa. Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, Jorge Zelada, Renato Duque e outros (a CGU contou 60) são todos técnicos e competentes funcionários de carreira da Petrobrás, corruptos e escravizados pelos partidos que os apadrinharam. 

É JORNALISTA E PROFESSORA DE COMUNICAÇÃO DA PUC-RIO 

(E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR)

 

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