DIDA SAMPAIO/ESTADAO
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Ministros de Dilma se afastam da política

Titulares de pastas no governo da petista retomam trabalhos após quarentena

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2016 | 06h00

BRASÍLIA - Seis meses após o afastamento de Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, ministros da ex-presidente começam a voltar ao trabalho sem perspectiva de retorno à política, ao menos a curto prazo. Proibidos de exercer suas atividades profissionais até hoje por causa da chamada “quarentena”, que terminou no último dia 12, muitos dos auxiliares de Dilma ainda não definiram o seu destino. Os que são filiados ao PT, porém, têm uma certeza: não querem compor a direção do partido.

É o caso do ex-chefe da Casa Civil Jaques Wagner, que mora em Salvador. Se dependesse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Wagner seria presidente do PT. Mas ele já avisou Lula que não entrará nessa briga. Wagner foi convidado pelo governador da Bahia, Rui Costa, para assumir a Fundação Luís Eduardo Magalhães, instituição destinada a fomentar políticas públicas e ações de qualificação de servidores.

Antes, o poderoso ministro de Dilma havia sido chamado para a Secretaria de Governo da Bahia, mas recusou a oferta. Ex-governador do Estado, de 2007 a 2014, disse preferir um cargo com menos visibilidade, a exemplo de Dilma, que vai presidir o conselho da Fundação Perseu Abramo. Apesar de recusar ser candidato ao comando do PT, o ex-chefe da Casa Civil tem visitado diretórios da sigla. “Não preciso presidir o partido para contribuir”, comentou.

A mesma frase é repetida pelo ex-ministro da Secretaria de Governo Ricardo Berzoini, que assegura não querer voltar de jeito nenhum a dirigir o PT. Integrante da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), liderada por Lula, Berzoini chegou a participar de reuniões do grupo Muda PT, que reúne tendências de esquerda. Atuou como uma espécie de bombeiro na crise petista, que só aumentou após o impeachment de Dilma, na esteira da Lava Jato e do fiasco nas eleições municipais. “Mas eu sempre avisei: ‘Se for para discutir nomes para a presidência do PT, estou fora. O momento é de coesionar o PT, não de ficar se engalfinhando”, insistiu Berzoini.

Funcionário concursado do Banco do Brasil há 38 anos, o ex-ministro se reapresentou ao trabalho e disse ter sido “realocado” num departamento da instituição, em Brasília. Tem, no entanto, férias a cumprir. Além disso, já pode se aposentar, se quiser. “Até o fim deste ano vou decidir o que fazer. Estou tranquilo”, afirmou. “Você já leu A Insustentável Leveza do Ser? Eu estou assim, lendo algumas coisas de novo e pensando o que quero ser, sem ansiedade”, emendou, numa referência ao livro de Milan Kundera.

Quase a metade da equipe de Dilma cumpriu quarentena por decisão da Comissão de Ética Pública da Presidência da República. Críticos do governo de Michel Temer, os ex-ministros ganharam, nesse período, o mesmo salário de quando estavam na ativa: R$ 30,9 mil mensais. A concessão do benefício é prevista na lei para evitar conflito de interesse de quem sai de um cargo público para exercer funções na iniciativa privada.

“Eu também voltei ao meu órgão de origem, que é a roça aqui em Alagoas”, brincou o ex-ministro do Esporte Aldo Rebelo. Jornalista, Aldo está escrevendo dois livros e passa boa parte do tempo no seu sítio em Viçosa (AL). Uma das obras já tem até título: “A Copa que o Brasil venceu”. A outra é um balanço sobre o Código Florestal. Ex-presidente da Câmara, filiado ao PC do B, Aldo disse que, por enquanto, não planeja se candidatar às eleições para deputado, em 2018. “Não digo que sim nem que não, mas estou pensando em trabalhar como jornalista.”

Aloizio Mercadante, que foi titular da Educação e influente ministro da Casa Civil, antes de Wagner, continua morando em Brasília, mas não tem ido a reuniões do PT. Lê muito e gosta de mostrar fotos de seus netos. Mercadante pediu aposentadoria proporcional ao Senado. Sua assessoria informou que, para tanto, ele computou o tempo de trabalho como professor e deputado federal e não apenas de senador, de 2003 a 2011.

Advogado de Dilma no impeachment, José Eduardo Cardozo reassumirá na quarta-feira o cargo de procurador do município de São Paulo, para o qual prestou concurso há 34 anos. Ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, Cardozo trabalhará para a Prefeitura a ser comandada por João Doria, do PSDB, mas no escritório de Brasília. Em breve, no entanto, deve pedir licença de novo. Ele vai se associar ao escritório Celso Cordeiro e Marco Aurélio Carvalho e coordenará o Departamento de Direito Administrativo. Para o presidente Temer, Cardozo prevê um futuro “sinistro”. “É um governo que terá muita dificuldade de chegar ao seu final”, afirmou.

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