Modelos de eleitores e projeções para o segundo turno

Modelos de eleitores e projeções para o segundo turno

Análise originalmente publicada no Estadão Noite

Bruno Wilhelm Speck*, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2014 | 14h13

As projeções de resultados para diferentes cenários de segundo turno partem da imagem de um ‘eleitor de cabeça feita’. Este teria preferências partidárias ou pessoais claramente ordenadas e faria diferentes escolhas em função do leque de alternativas à disposição. Por exemplo, um eleitor que prefere Marina a Dilma e Dilma a Aécio votaria em Marina no primeiro turno e em Dilma num eventual segundo turno contra Aécio. Este modelo do ‘eleitor de cabeça feita’ é bastante difundido. Ele também está por trás da ideia do ‘voto útil’, quando o eleitor leva em conta somente candidatos com chance de ganhar, ou do ‘voto de consciência’, quando ele prioriza a expressão de sua preferência sobre o impacto do seu voto sobre o resultado eleitoral. 

A este modelo se opõe outro, do ‘eleitor informado’. Este eleitor não tem preferências imutáveis, mas formará as suas posições políticas no decorrer do processo eleitoral. Para os otimistas este processo ocorre durante o debate entre candidatos, seguindo regras de uma disputa entre argumentos racionais. Para outros a troca de argumentos tem conotações de manipulação, em que a informação é distorcida em função da distribuição desigual dos recursos de comunicação. São estes os recursos financeiros das campanhas e o horário eleitoral gratuito. Em ambos os campos, no primeiro turno a candidata Dilma levava vantagem sobre os seus concorrentes. Ela arrecadou mais recursos e teve mais tempo de propaganda gratuita. Tudo indica que o jogo no segundo turno será mais equilibrado. No caso horário eleitoral gratuito, a legislação prevê tempo igual para os candidatos no segundo turno. No financiamento de campanha em disputas acirradas, os financiadores privados frequentemente dividem o dinheiro entre os dois lados da disputa, garantindo boas relações com o governo que vier. 

Um terceiro modelo supõe que eleitores se posicionam nas eleições em função da orientação de lideranças políticas. Estes ‘eleitores redirecionados’ incluem, em primeiro lugar, os eleitores órfãos cujos candidatos foram derrotados no primeiro turno. No caso da eleição presidencial, o impacto destes mecanismos de transferência de votos é uma incógnita porque desconhecemos tanto a intenção como também a capacidade de transferência de votos dos candidatos derrotados para os finalistas Aécio e Dilma. Julgando pela história, a probabilidade de Marina tomar uma decisão rápida é baixa e a sua capacidade de redirecionar o voto dos seus eleitores não foi testada ainda. Outra incógnita é se o PSB e a candidata seguirão a mesma posição. Não parece improvável que a aliança pragmática entre a candidata e o partido que a acolheu rompa nesta decisão.

Se o ‘eleitor de cabeça feita’ for o modelo correto e as pesquisas divulgadas estiverem certas, dois terços dos eleitores de Marina (14% dos eleitores) migrarão para Aécio e um terço (7%) para Dilma. Supondo ainda que os eleitores de Luciana Genro votarão em Dilma, teremos uma eleição apertada, com uma pequena vantagem para Dilma sobre Aécio. Caso a disputa pelo eleitorado sem candidato seja decidida pelos recursos disponíveis aos candidatos, Dilma e Aécio dividirão o eleitorado dos candidatos derrotados em partes iguais, o que levará a uma vitória mais folgada de Dilma, em função  do seu ponto de partida mais alto. O destino de Aécio parece estar amarrado à vontade e capacidade de Marina e o PSB jogarem o seu peso na disputa eleitoral, da mobilização de senadores e governadores eleitos no primeiro turno para continuarem em campanha e de dobradinhas com governadores disputando o segundo turno nos Estados onde Aécio teve fraca votação.

* BRUNO WILHELM SPECK É DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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