Modernismo barato

Para driblar a crise, arquiteto economiza material e ataca de pedreiro

Fred A. Bernstein, NYT / REPORTAGEM e Ryann Ford, NYT / FOTOS,

14 de dezembro de 2010 | 10h00

Marsha Fatino e Alison Thorn quase podiam sentir o dinheiro escorrendo pelos dedos. O arquiteto contratado pelas duas,Burton Baldridge, já tinha projetado a casa que seria construída em Austin, no Texas. No início de 2008, os custos, estimados em US$ 461 mil, eram razoáveis. "Tínhamos tudo aprovado", diz Marsha, executiva de marketing de 49 anos. Mas, oito meses depois, veio a crise e os mesmos bancos que já tinham aprovado o crédito não estavam mais concedendo empréstimos para construção.

 

Depois de meses de trabalho em tempo integral, Marsha e sua companheira, Alison, que é gerente de contas de uma empresa de alta tecnologia, conseguiram levantar US$ 365 mil. O restante poderia ser coberto com suas contas de aposentadoria. Mas elas também tinham sofrido o efeito da desaceleração econômica - assim, a única maneira de erguer a casa era reduzir o orçamento.

Baldridge se reuniu com seus dois funcionários e propôs que eles mesmos construíssem a casa. Afinal, seus empregos estavam em risco. O valor pago pelas clientes cobriria salários e despesas, mas não daria lucro. Mesmo assim, a ideia de contratar uma empreiteira baratinha foi descartada. "Não queríamos comprometer os belos detalhes modernistas do projeto", lembra ele.

 

Não era isso que Baldridge tinha em mente quando abandonou a advocacia e, em 2005, abriu o escritório de arquitetura. "Não sabíamos o que era projetar e construir ao mesmo tempo", afirma. Mas, como muitos arquitetos determinados a vencer mesmo durante a recessão, ele diz que fez o que tinha de fazer.

 

Quando chegou a hora de construir, eles perceberam que não tinham grande experiência. E foram fazer cursos complementares na Universidade de Austin, como o de solda, para poder montar a estrutura das escadas. "A nossa maneira de compensar foi realmente cuidar para que as coisas saíssem bem", diz Baldridge.

 

A redução de custos passou ainda pelo corte de alguns elementos arquitetônicos do projeto e, principalmente, pela substituição dos materiais e acabamentos mais caros. No teto, a ideia era construir uma sky box, caixa de vidro pensada para ser um pequeno espaço de meditação. Marsha e Alison abriram mão dela, mas não de sua estrutura: instalaram os suportes para poder acrescentá-la depois.

 

 

 

 

O telhado verde sobre a laje da garagem se transformou numa pequena horta, em frente à cozinha, no primeiro andar. E essa cozinha faz parte de um espaço de pé-direito duplo, amarrado por uma grande escada revestida de madeira. No lugar das pedras de quartzo previstas para os balcões, elas utilizaram aço laminado a quente, recoberto por camadas de epóxi.

 

 

 

 

 

Os pisos, que seriam de madeira de lei, foram substituídos por concreto nu - que é, na verdade, a laje da estrutura impermeabilizada com verniz DuraSheen. A parede principal da sala, prevista para ser de pedra, é de pinho. E as lâminas de madeira que revestem a escada vieram de um home center.

 

 

 

 

 

Outra fonte de cortes foi a pintura. Executada pelo arquiteto e por seus funcionários, contou com o reforço de três amigos designers. Em vez de duas demãos de tinta, as paredes receberam apenas uma. E foram dispensados os rodapés. A fachada, de aço corten, custou US$ 5 por m2. Suas chapas foram pulverizadas com ácido muriático, para que enferrujassem rapidamente.

 

 

 

Com 232 m2, a casa foi erguida no lugar de um chalé, de 1930, onde as proprietárias viviam desde 1997. "Quando o chalé começou a dar problemas, com água espirrando pelo ralo da banheira, decidimos construir uma casa nova", diz Alison. Mais espaçosa, a nova morada tem uma sala de música para Marsha, que toca guitarra, um estúdio para os projetos de fotografia e pintura de Alison. E muito espaço para os três cachorros.

 

Uma coisa que elas aprenderam é que não precisam de muitos móveis, incluindo os que foram deixados num depósito quando o chalé foi derrubado. "Desembalamos as coisas e perguntamos: para que precisamos guardar isto?", diverte-se Marsha. Tradução de Terezinha Martino

 

 

 

 

 

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