Moebius: o artista que vivia no futuro e explorava o interior

Análise: Jotabê Medeiros

O Estado de S.Paulo

11 Março 2012 | 03h04

Lendo as histórias escritas e desenhadas por Moebius, encontra-se protótipos do que hoje conhecemos como GPS (ele chamava de 'calculadoras-memórias'), alimentos transgênicos, TVs de LCD, cérebros eletrônicos, próteses ultrassofisticadas. Seus heróis têm cortes de cabelo de punks interplanetários, e às vezes se comunicam em "supercódigos de comunicações militares" (lembrem-se que a internet nasceu no Pentágono).

Tudo isso já estava presente nas histórias que Moebius desenhou e escreveu nos anos 1970, para a lendária revista Métal Hurlant. Entretanto, as visões futuristas de Jean Giraud, o Moebius, não estavam a serviço apenas de um funcionalismo formal. Pelo contrário: Moebius procurou combater no mundo do ativismo político com armas inventadas com saber e com sabor. Era um ambientalista irônico, que sabia que a humanidade armava um armagedon sem precedentes - sua luta era alertar os mais sabidos.

Em seus mundos inventados, os habitantes defrontaram-se com autoritarismo e totalitarismo em suas diversas formas, com titãs sexuais fugindo desesperadamente de uma Polícia Antifornicação - como nas distopias geniais de Aldous Huxley e Philip K. Dick. Ironia, sarcasmo, humor negro.

O traço de Moebius, fundado numa grande liberdade de desenho, com o trabalho direto na tinta, sem esboço nem roteiro preconcebido, parecia projetá-lo como um precursor da estética new age, uma sinfonia sensorial emprenhada pelo surrealismo. Mais do fantástico do que da ficção científica, ele costumava dizer. E seguindo muitas vezes o princípio da escrita automática dos surrealistas. "A quinquilharia galáctica aqui tem pouco espaço, predomina mais o sonho", afirmou, sobre o álbum Absoluten Calfeutrail (Nemo Editora). O sonho libertava suas naves espetaculares, seus seres de espuma ou de carnes tentaculares. "Eu amo as histórias quando elas são verdes e cruéis", declara um dos seus personagens.

Falando de si mesmo em terceira pessoa, Moebius disse: "De fato, isto é exatamente Moebius: a exploração interior. Isso explica porque, sob formas diversas, meu personagem favorito é um viajante, um explorador. Arzach, o Major Grubert, o Starwatcher, todos são personagens errantes, todos passam por caminhos que passei. Cada um representa uma parte de mim mesmo."

Em 2000, o Festival de Angoulême, na França, o maior encontro de quadrinhos daquele País e um dos mais importantes do mundo, prestou seu tributo a Moebius. Montou uma instalação gigante em um prédio inteiro com suas fantasias. Os fãs pareciam não acreditar quando entravam em sua Garagem Hermética por um caminho que parecia de sonho.

Sua associação com o escritor e cineasta também de escopo surrealista, Alejandro Jodorowsky (autor de El Topo e A Montanha Sagrada) gestou uma dos mais importantes e influentes séries dos quadrinhos da História, O Incal, publicada originalmente pela editora Les Humanoïdes Associés.

Uma saga de ficção científica genuína que abalou os anos 1980. Por ironia do destino, a Devir Editora relançou, na semana passada, a série inteira com capa dura e 308 páginas. É um testamento e tanto.

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