Monarquia tropical

No Brasil o imaginário que envolve a realeza está sempre presente, transfigurado por inúmeros soberanos e rainhas pretos e mulatos

30 Abril 2011 | 16h00

Conta o dito popular que nada supera o charme da realeza. Se toda menina padece do "mal de princesa"; se garotos crescem sendo "príncipes Filipes"... Já entre adultos não há quem deixe de se interessar pelo cotidiano dos poucos soberanos espalhados pelo planeta: elas sempre lindas, eles nem tanto.

Não existe sociedade sem rituais, mas é só a monarquia que institui mecanismos simbólicos como esses no corpo de suas leis: eles oficializam posições de privilégio, criam hierarquias nobiliárquicas. Foi assim com a realeza francesa, que fez moda desde o século 17; com a Habsburgo, que ditou regras a partir de finais do 18, e com a inglesa, que dominou os mares e a imaginação pelo século 19 adentro.

No caso brasileiro, o interesse é antigo. Em tempos coloniais, os distantes soberanos lusitanos incendiavam a imaginação a partir de gravuras e moedas que traziam suas efígies e eram distribuídas pelo território. Monarcas em carne e osso só chegariam ao Brasil no começo do século 19, quando a família real portuguesa se mudou de mala e cuia para a colônia atlântica. Mas antes deles já se coroavam rainhas Gingas, assim como se elegiam imperadores do divino.

Vale a pena, assim, prestar atenção na boa recepção que a realeza sempre teve entre nós, até mesmo na conjuntura de crise do sistema colonial e do Antigo Regime. Por aqui, o mito do rei solar atuou como fator catalisador. Além de carismático, o poder monárquico guardava uma natureza divina, o suposto medieval de que os reis possuíam dois corpos: um humano (que os igualava a seus súditos) e um divino (que fazia com que fossem julgados apenas por Deus). Esse tipo de filosofia política viajaria na bagagem de d. João, em 1808. Foi em 1790 que o bacharel Francisco António de Campos ofereceu ao príncipe regente um manuscrito intitulado Príncipe Perfeito. Entre os vários sonetos encontra-se o "emblema e officio do rey o da cabeça", em que a doutrina dos dois corpos é apresentada com nova interpretação: o povo forma o corpo; o rei, a cabeça.

Já em tempos de Pedro II, a versão seria novamente relida: algumas vezes o rei era a cabeça e o povo, o corpo. Em outras, o oposto. Se nas comemorações dos natalícios o monarca seguia na frente das procissões, nas festas populares ele seguia o périplo. No carregado calendário do império, os rituais mais populares competiam com os oficiais e funcionavam como momentos de teatralização da força real. Nessas ocasiões, porém, misturavam-se coroas, cetros e celebrações, tradição europeia ocidental com elementos da estética africana. Essa monarquia tropical se combinava com a mística sebastianista. Previa o retorno do rei ausente, que poderia muito bem aparecer na rica possessão do ultramar. Por fim, no espaço das ruas da corte, Pedro II convivia com monarcas como o exótico rei Obá: um herói da Guerra do Paraguai que, na região que circundava o Paço conhecida como Pequena África, era cumprimentado com o respeito que a posição lhe facultava.

Construiu-se, portanto, um universo híbrido em que várias monarquias eram coroadas. No "país das festas" o rei era personagem principal, mas ora brilhava por sua descendência Bourbon e Habsburgo, ora surgia incluído em outra cosmologia real, sem data ou dono. O fato é que a experiência monárquica deixou raízes tão reais como imaginárias. Sabe-se que uma das primeiras medidas da república foi abolir os títulos de nobreza, em meio a dois atos falhos. Floriano assinou a medida e a enviou ao ministro José Maria da Silva Paranhos. Entretanto, endereçou-a para o "Barão de Rio Branco", o qual, em moto continuo, confirmou: "Ciente, Barão de Rio Branco". Dizem que quem é rei não perde a realeza, e o mesmo vale para duques e barões. Não temos mais títulos, mas até hoje famílias conservam os nomes. Isso sem esquecer reis e princesas que desfilam no carnaval ou o fato de que no País todo aquele que se destaca vira rei. Roberto Carlos é o rei da voz; Pelé é o rei do futebol e na Bahia não é incomum, numa demonstração de carinho, alguém exclamar: "Ei, meu rei!"

Esses são exemplos do brilho continuado da realeza, até mesmo quando traduzida em termos locais. Afinal, diferentes sociedades produzem e reproduzem o espaço do poder a partir de requintadas cosmologias. Se já em 1896 E. Durkheim, em Regras do Método Sociológico, destacou a importância dos "fundamentos sociais da vida simbólica", quem sabe, diante do barulho que a monarquia faz, possamos inverter a equação e pensar nos "fundamentos simbólicos da vida social". No carnaval, com a simpática figura do Rei Momo, nas congadas com o Rei Congo, nas cavalhadas com o Rei Arthur, na festa do Ticumbi com o Rei Bamba, nas festas do quilombo em Alagoas, em que os caboclos roubam a rainha dos pretos, ou no maracatu de Recife, quando a rainha mestiça desfila ao lado da dama do Paço e de d. Henrique, o imaginário que envolve a realeza está sempre presente, transfigurado por tantos soberanos e rainhas pretos e mulatos.

Símbolos não são adereços. São poderosos produtores de concepções, valores e modelos. Nesse terreno reina soberana a realeza com sua ritualística reluzente. Como poetiza Fernando Pessoa: "O Atlântico continua no seu lugar simbólico. E há sempre Império desde que haja Imperador".

 

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA  TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS, 2008)

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