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'Moonlight' tem similaridades com o documentário nacional 'Waiting for B'

Público que lota as salas para ver o vencedor do Oscar bem poderia prestigiar o filme de Abigail Spindel e Paulo César Toledo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 Março 2017 | 04h00

Pode parecer forçação de barra, mas é possível fazer o link entre Moonlight – Sob a Luz do Luar, a ficção de Barry Jenkins que ganhou o Oscar, com o documentário Waiting for B., de Abigail Spindel e Paulo César Toledo.

O B do título refere-se a Beyoncé e o que o filme conta é a história de um grupo de garotos – gays, a maioria – que acampou durante dois meses em frente ao Estádio do Morumbi, à espera do show que a estrela fez em São Paulo, em 2013.

Moonlight é sobre um negro gay e pobre que passa pela vida reprimindo sua sexualidade e adotando máscaras. Little vira Chiron, que vira Black e só no fim se cria o movimento para que, talvez, ele possa enfim se assumir e viver a própria vida.

No documentário de Abigail e Toledo, os garotos são gays assumidos. Muitos negros, todos da periferia, ninguém é vagabundo. Um faz piada – “Pra ficar nessa fila e curtir B., o sujeito tem de ser viado!” O que o filme mostra, acompanhando-os em casa, no trabalho, na fila, é como eles se afirmam como grupo e como individualidades, enfrentando o preconceito e fazendo valer seus direitos.

Na fila, acampados em barracas e amparando-se uns nos outros, eles podem ser como são – efeminados, mulherzinhas, bofes. Imitam as coreografias de B. e seus dançarinos, contam piadas infames (e discriminatórias).

Em casa, o irmão hétero olha com censura para um dos protagonistas e a mãe de outro apresenta visível mal-estar pelo comportamento do filho. Seria, eventualmente, um programa exótico para heteros das classes A e B, que poderiam até se sentir, graças à força do cinema, transportados para um universo paralelo. Mas é o mundo real, e o Brasil. Os garotos não são meros estereótipos. São gente como a gente. Têm sonhos. Lidam com dificuldades.

Num dia de jogo, eles se reprimem, com medo de sofrer agressões físicas e verbais. Mas B. ou o São Paulo F.C., tudo é culto, não muda muito. Em Moonlight, Black também modela o corpo e cria uma persona de ‘mau’ para vencer no violento mundo do tráfico. O culto a B. não é por acaso.

Negra, ela venceu no show biz, realizando o sonho americano. É a artista negra mais rica e uma das mais premiadas da história, com 21 Grammys. E B. tem militado em favor dos negros e dos gays. Sua maior inspiração, não se cansa de dizer, foi o tio homossexual, que morreu de aids.

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