Morales se diz vítima de discriminação na Bolívia

Panfletos agressivos fazem referência à origem indígena do presidente.

Marcia Carmo, BBC

06 de setembro de 2007 | 19h01

O presidente da Bolívia, Evo Morales, disse nesta quinta-feira que é vítima de discriminação em panfletos distribuídos no departamento (Estado) de Santa Cruz de la Sierra e na cidade de Sucre, capital de Chuquisaca.Em discurso na sua terra natal, Oruro, Morales afirmou: "Estes panfletos dizem: ''Plano para derrubar o índio de merda''."A informação foi publicada, quarta-feira, na Agência Boliviana de Informação (ABI). No texto, afirma-se que Morales interpretou a propaganda como parte da mesma que "tenta expulsá-lo" da Presidência do país.Representantes da oposição confirmaram nesta quinta-feira a existência do panfleto e ainda de pichações, principalmente, em Sucre com frases agressivas contra Morales. Mas eles negam a autoria das missivas, que não levam assinatura."Daqui da nossa entidade não saiu nenhum desses panfletos contra o presidente", disse o presidente do Comitê Cívico de Sucre, Jhon Cava, falando pelo telefone, da capital de Chuquisaca."Tem gente pintando isso e mais nos muros, mas são casos isolados. Tem muita gente insatisfeita com o presidente", acrescentou.Em Sucre estão sendo realizados fortes protestos para que a Assembléia Constituinte volte a debater o retorno da presidência da República e do Congresso Nacional para esta capital, deixando a sede atual de La Paz.Nesta quinta-feira, cerca de 60 pessoas saíram feridas, segundo a imprensa local, nas manifestações, que acabaram suspendendo as discussões na Assembléia Constituinte.Em Santa Cruz de la Sierra, o porta-voz do Comitê Cívico local - que reúne profissionais e parlamentares da oposição) - também confirmou que existem panfletos e pichações contra Morales."Mas em Sucre, onde a situação é turbulenta. Aqui, não. Mas é o próprio presidente que sai provocando as pessoas e então dá no que dá", criticou o porta-voz Daniel Castro, em entrevista por telefone."Estes panfletos não me surpreendem porque o presidente gerou uma polarização no país. Eu até desconfio que o serviço de inteligência está fazendo esta propaganda para que o presidente fique com cara de vitima diante do que ele chama de oligarquia, neoliberais e milionários das terras", disse Castro. Por sua vez, para o líder boliviano, os autores desta campanha "racista" são opositores aos seus principais projetos como a nacionalização (de diferentes setores como petróleo e gás, já concretizado).Na opinião de Morales, trata-se de uma "luta ideológica e cultural", estimulada por grupos que não querem perder seus "privilégios".As declarações de Evo Morales ocorrem em um novo delicado momento na política do país.No mês passado, situação e oposição brigaram a socos e pontapés numa discussão para destituir juízes do tribunal constitucional.Na semana passada, prefeitos (equivalente a governadores) de seis dos nove departamentos do país apoiaram um dia de greve contra o governo Morales.Mas a adesão foi considerada pífia até entre setores da oposição. A Bolívia é um país tradicionalmente dividido - no voto, no poder aquisitivo e nas condições de vida - entre Oriente (os estados mais ricos, como Santa Cruz e Tarija, entre outros) e Ocidente (a parte indígena que conta com La Paz e o maior apoio ao presidente)."Não tenhamos medo. Eu estou visitando todo o país e sinto, em cada lugar que chego, que ninguém freia mais esse processo de mudanças", disse Morales em Oruro.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.