Moratória em Dubai assusta bolsas

Adiamento de 6 meses no pagamento de dívida de US$ 60 bilhões causa impacto nos mercados de todo o mundo

AGÊNCIAS INTERNACIONAIS, DUBAI, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2009 | 00h00

A decisão do emirado de Dubai, divulgada ontem, de pedir uma moratória de seis meses no pagamento da dívida do conglomerado Dubai World assustou investidores do mundo todo. Com exceção dos Estados Unidos, onde o mercado permaneceu fechado por causa do feriado de Ação de Graças, as bolsas caíram na Ásia, na Europa e na América Latina. Ontem o xeque Ahmed bin Saeed al Maktoum, membro sênior da família real de Dubai, tentou diminuir o temor dos investidores.

"Entendemos a preocupação do mercado e dos credores. Entretanto, tivemos de intervir pela necessidade de empreender uma ação decisiva para encarar o fardo da dívida. Nossa intervenção na Dubai World foi cuidadosamente planejada", afirmou o xeque, que também chefia um importante comitê financeiro de Dubai e é chairman da empresa aérea Emirates, em comunicado por e-mail. "Nenhum mercado está imune a questões econômicas", prosseguiu Al Maktoum.

No Brasil, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) perdeu 2,25% e o dólar subiu 1,39%, para R$ 1,75. Em Londres, o Índice FTSE baixou 3,18%. Em Paris, o Índice CAC 40 desvalorizou 3,41%. O Índice Nikkei, de Tóquio, recuou 0,6% ontem e nas primeiras horas de hoje já apresentava queda de 1,74. Outros mercados também foram afetados. O cobre, por exemplo, caiu 2,3% no mercado britânico. O petróleo, 1,77%, para US$ 77,05 o barril.

"Os temores sobre Dubai jogaram um papel-chave para espantar o mercado em um momento no qual os EUA estão fechados", disse o economista do banco Commerzbank Peter Dixon. "É um dia em que se provocou novamente incerteza nos mercados. Creio que não se refletirá realmente nos fundamentos subjacentes da economia e do próprio mercado. É apenas um golpe na confiança."

O Dubai World, conglomerado que atua nos setores de imóveis a portos, com passivos de quase US$ 60 bilhões, pediu um adiamento de seis meses no pagamento da dívida do grupo, o maior de Dubai. O objetivo é estender o vencimento a pelo menos 30 de maio do próximo ano.

A moratória terá impacto sobre um bônus sukuk (islâmico) de US$ 3,65 bilhões que a subsidiária do setor de imóveis do Dubai World, Nakheel, teria de pagar em 14 de dezembro. O valor do bônus caiu de cerca de US$ 1,10 antes das notícias, para cerca de US$ 0,70, em um sinal de que a decisão de Dubai pegou os investidores de surpresa. O pagamento era visto como teste crucial da capacidade de Dubai de pagar sua dívida, em meio ao crash no mercado imobiliário que ricocheteou na economia então pujante do emirado.

A decisão da Dubai World provocou dúvidas sobre outras dívidas de empresas ligadas ao governo. A agência de classificação de risco Moody"s calcula que o emirado pode precisar reestruturar até US$ 25 bilhões em dívida, particularmente no setor de imóveis. O Credit Suisse estima que bancos europeus podem ter exposição de US$ 40 bilhões no país - daí as fortes quedas nas bolsas ontem.

Mas ainda é difícil avaliar o impacto total, já que Dubai não publica dados consolidados da dívida do setor público. A incerteza reflete-se nos Credit Default Swaps (CDS), que identificam o nível de busca de proteção contra risco de crédito da dívida de Dubai, que subiram para 5,7% ao ano, de 3,18% há dois dias.

Segundo analistas, a decisão de Dubai pode ser um divisor de águas. Durante a crise, os governos deram ajuda aos bancos globais, depois o apoio foi estendido a montadoras nos EUA e Europa. No nível soberano, países se uniram para dar sustentação a outros. O próprio Dubai criou um Fundo de Suporte Financeiro para as estatais.

Mas toda essa ajuda tem um custo. Os governos estão sob pressão para controlar suas dívidas, particularmente quando os bancos centrais começam a retirar as medidas, removendo parte do apoio para os mercados de bônus do governo. Com isso, eles podem reduzir o suporte, resultando em mais surpresas desagradáveis, à medida que deixam outros investimentos inviáveis à deriva.

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