Morre a dama da fotografia, viúva de Cartier-Bresson

Memória

, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h06

A morte da fotógrafa belga Martine Franck, aos 74 anos, ontem, em Paris, em decorrência de longa enfermidade, que decidiu silenciar, deixa o mundo das artes desolado. A viúva do também fotógrafo Henri Cartier-Bresson (1908-2004), além de um dos maiores nomes da prestigiosa agência Magnum, foi uma das grandes incentivadores do teatro francês. Elegante, discreta, poucos se lembram que a fotógrafa fundou com Ariane Mnouchkine o Théâtre du Soleil, em 1964, não abandonando jamais a companhia. São dela os registros das antológicas montagens feitas pela encenadora.

Nascida em Anvers em 2 de abril de 1938, Martine Franck estudou História da Arte em Madri antes de se fixar em Paris e pesquisar cultura clássica no Louvre, ajudando Mnouchkine a criar sua trupe, após uma viagem iniciática ao lado da diretora ao Extremo Oriente. Em 1964, quando o Théâtre du Soleil foi criado, ela trabalhava como fotojornalista para o grupo americano Time-Life, tendo seus retratos de escritores e artistas publicados na Life e Vogue.

Martine se tornou, em 1983, membro da agência Magnum, fundada pelo marido com Bill Vandivert, Robert Capa e outros fotógrafos. Trinta anos mais nova que Cartier-Bresson, essa diferença de idade não parecia um abismo entre o casal, mas uma ponte para troca de informações culturais, uma vez que a experiência do marido, primeiro fotógrafo ocidental a registrar a vida na extinta URSS, ajudou-a a definir seus temas e sua postura ideológica, francamente a favor dos ideais democráticos.

O estilo de Martine Franck, no entanto, distancia-se do naturalismo do marido Cartier-Bresson. Ela concebia a estrutura de suas fotos de maneira clássica, definindo o espaço dentro de um grafismo puro, construtivista. Duas imagens permanecerão para sempre na memória de quem ama a arte, a do pintor Balthus com seu gato e a de Giacometti em seu ateliê empoeirado.

Martine Franck dirigia a Fundação Cartier-Bresson desde 2002. Em sua última exposição, na Galerie Claude Bernard, a fotógrafa mostrou imagens de pássaros e paisagens registradas na ilha irlandesa de Tory (ou Oileán Thoraigh). Foi o testamento de quem amava a natureza com a intensidade presente nas fotos que fez pelo mundo todo./ ANTONIO GONÇALVES FILHO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.