Morre aos 63 anos o ex-prefeito Celso Pitta

Internado em SP desde o dia 3, ele lutava contra o câncer no intestino

Fausto Macedo, Clarissa de Oliveira e Chiara Quintão, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

Celso Roberto Pitta do Nascimento, de 63 anos, ex-prefeito de São Paulo (1997-2000), morreu às 23h50 de sexta-feira, vítima de câncer no intestino. Ele estava internado desde o dia 3 no Hospital Sírio-Libanês. Lutava contra a doença havia onze meses. Isolado politicamente - vivendo de "algumas consultorias" na área de economia, como ele próprio informava -, Pitta morreu acuado pelo Ministério Público e pela Justiça, sob acusação de atos de improbidade administrativa e corrupção.

Economista, com mestrado na Universidade de Leeds (Inglaterra) e na de Harvard (EUA), despontou durante a gestão de Paulo Maluf (PP-SP), seu padrinho político, na Prefeitura de São Paulo (1993-1996). Naquele período, foi secretário de Finanças e envolveu-se em um dos episódios mais emblemáticos do governo Maluf - emissão de Letras Financeiras do Tesouro para pagamento de precatórios, dívidas judiciais da administração. Ao final do mandato, Maluf escolheu Pitta para sucedê-lo. Foi uma surpresa. Aos céticos, Maluf declarou: "Votem no Pitta, e se ele não for um grande prefeito, nunca mais votem em mim".

O isolamento de Pitta ficou evidente no velório realizado na Assembleia Legislativa e, mais tarde, no enterro no cemitério Gethsêmani, em São Paulo. Nem dirigentes do partido a que ele estava filiado, o PTB, apareceram. Entre os presentes, os que mais se destacavam eram nomes como o vereador e cantor Agnaldo Timóteo (PR). Apareceram ainda alguns de seus ex-secretários na Prefeitura, como Fausto Camunha (Esportes) e Guto Meinberg (Governo). Além disso, as presenças mais marcantes eram o megainvestidor Naji Nahas ou a dermatologista Ligia Kogos. A Polícia Militar chegou a estimar em 600 pessoas o público do velório, mas apenas cerca de 100 assinaram o livro de visitas.

Ao se eleger, Pitta teve 62,2% dos votos, superando Luiza Erundina (PT). Mas logo rompeu com Maluf, que nem ao velório foi. Em viagem, segundo assessores, Maluf, hoje deputado, mandou telegrama. "Nossos pêsames pelo falecimento de Celso Pitta, que lamentamos", dizia o texto.

O ex-governador Orestes Quércia (PMDB) lamentou. "O Pitta, no fundo, é um injustiçado. É mais vítima do que algoz em todo o processo. Desejamos que ele vá para o céu." O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), ex- secretário de Planejamento de Pitta, se manifestou apenas em nota. "Meus votos de pesar à família e aos amigos em um momento que todos nós sabemos que é muito difícil."

No último ano da gestão, Pitta foi afastado por decisão judicial, em função de um empréstimo de R$ 800 mil que tomou de um empresário que acabou beneficiado pela administração. Ficou fora 19 dias até que o Superior Tribunal de Justiça o reconduziu ao cargo.

Com os bens bloqueados, Pitta enfrentava 20 ações de caráter civil. A legislação penal determina extinção de ação com a morte do acusado. Mas as ações civis não se encerram. O artigo 8.º da Lei 8.429 (Lei da Improbidade) estabelece que o sucessor daquele que causa lesão ao patrimônio público ou enriquece ilicitamente fica sujeito às mesmas penas - os herdeiros ficam com os bens e com as dívidas. Pitta deixa dois filhos, Victor e Roberta, que acompanharam silenciosamente o final do velório e o enterro.

A promotoria vai requerer à Justiça que os herdeiros integrem como réus as ações. Eles não podem sofrer sanções de cunho político ou administrativo, mas assumem o ônus do ressarcimento do erário até o limite do valor da herança. A viúva do ex-prefeito, Rony Golabek, prometeu escrever um livro para limpar o nome do marido, que descreveu como "vítima de uma armadilha política". "Ele foi o Judas da política, tenho certeza absoluta, e ainda vou provar isso."

O advogado de Pitta, Reno Battaglia, disse que seu cliente atribuía o agravamento da doença às ações judiciais que enfrentava. Em 2008, Pitta foi preso pela Polícia Federal na Operação Satiagraha e, em maio, o ex-prefeito cumpriu prisão domiciliar por não pagar a pensão a Nicéa Camargo, ex-mulher e sua principal acusadora - que também não foi ao velório. Segundo Battaglia, o ex-prefeito passava por dificuldades financeiras.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.