Morre o feroz crítico mexicano

Um dos principais renovadores da moderna literatura hispano-americana, escritor de 83 anos tratava de política e de ficção com uma prosa elegante e contundente

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

16 Maio 2012 | 03h04

Memória

Na tarde de anteontem, o mundo literário reagiu surpreso ao boato sobre a morte do escritor colombiano Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de Literatura de 1982. Os ânimos ainda se acalmavam com a falsidade do fato, quando ontem chegou, da Cidade do México, uma notícia verdadeira: a morte do mexicano Carlos Fuentes, aos 83 anos, de problema cardíaco.

Autor de mais de 50 obras, entre romances, ensaios, peças teatrais e contos, Fuentes estava internado em um hospital da capital mexicana para onde foi levado depois de passar mal, ontem pela manhã.

O médico Arturo Ballesteros, que o atendeu em sua residência, revelou a uma emissora de TV que o escritor teve "uma hemorragia intensa durante a noite derivada de uma úlcera". Segundo ele, eram 5 horas da manhã (7 horas em Brasília), quando a mulher de Fuentes, Silvia Lemus, percebeu seu estado crítico. Quando foi atendido, ele, no entanto, estava em estado de choque. "Nós o transportamos imediatamente ao hospital Ángeles, mas, apesar de todos os nossos esforços, Fuentes morreu às 12h15 (14h15 em Brasília)", disse Ballesteros.

A notícia imediatamente cruzou o mundo via internet - a cubana Yoane Sánchez postou foto do livro A Morte de Artêmio Artemio Cruz no parapeito de sua janela e o indo-britânico Salman Rushdie, no Twitter, lamentou a morte, além de lembrar a falsa história sobre García Márquez.

Justas manifestações de dor - Carlos Fuentes foi um dos principais responsáveis pela modernização da literatura hispano-americana, tratando de temas tão diversos como a questão da identidade mexicana e os meios adequados para expressá-la até críticas corrosivas ao governo do presidente americano George W. Bush a quem comparou, em entrevista concedida ao Estado em 2004, a Hitler e Stalin. "Houve presidentes inteligentes e bons (Truman, Carter), bons e simplórios (Ford e Eisenhower), inteligentes e perversos (Johnson e Nixon), brilhantes e sacrificados (Kennedy), simplórios mas obsessivos (Reagan). Agora, os EUA têm um presidente ao mesmo tempo simplório e perverso: George W. Bush", afirmou.

Filho de pais diplomáticos - daí ter nascido no Panamá, em 11 de novembro de 1928, embora fosse registrado como mexicano -, Fuentes foi também um duro crítico do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México por 71 anos, até 2000, e que tem chances de retornar na eleição de julho - em uma entrevista publicada no início do mês, em Buenos Aires, o escritor criticou duramente os candidatos presidenciais por não apresentarem capacidade suficiente para lidar com os graves problemas do país. "São medíocres ou pouco interessantes", disse. "Não trazem nenhuma novidade, apenas retórica." Fuentes também não perdoava os dirigentes de seu país por não combaterem com rigor o narcotráfico.

Admirador de Machado de Assis, o escritor esteve no Brasil pela última vez em novembro, no Rio, onde voltou a conversar com o Estado. Contou que finalizava o livro Federico en Su Balcón, no qual narra um encontro fictício com o filósofo alemão Nietzsche - sairá no Brasil pela Rocco, que edita sua obra. Preparava ainda El Baile del Centenario, romance histórico ambientado na Revolução Mexicana. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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