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Morto e deletado

Nº 2 norte-coreano estaria desafiando poder do líder Kim Jong-un

Jane Perlez e Choe Sang Hun - The New York Times,

14 de dezembro de 2013 | 16h00

Os norte-coreanos conheciam havia muito Jang Song-thaek como a figura número 2 do país, reverenciado tio e mentor de Kim Jong-un, o líder máximo. Então, na segunda-feira, a televisão estatal mostrou dois guardas de uniforme verde agarrando pelos braços um Jang de expressão sombria, tirando-o de uma reunião do partido do governo sob os olhares atônitos de dezenas de antigos camaradas. Jang fora denunciado como "elemento desagregador", "mulherengo", "jogador", "drogado" e outras imputações.

O espetáculo da expulsão e prisão humilhante forneceu um vislumbre absolutamente inusitado da luta pelo poder que se desenrola no país nuclear. Mas o maior impacto será no exterior, e as consequências de sua queda serão particularmente inquietantes na China.

Há muito tempo protetora e âncora econômica da Coreia do Norte, a China considera suas relações estrategicamente estreitas com o país um dos pontos fundamentais de sua política externa e um baluarte contra a presença militar americana na Coreia do Sul. Apesar da irritação dos chineses com os testes nucleares e outras formas de comportamento belicoso da Coreia do Norte, a China construiu um bom relacionamento com Jang como pessoa de confiança que aconselhava Kim, de 30 anos.

Qualquer mudança de Pequim em relação à Coreia do Norte poderá alterar significativamente o equilíbrio político na Ásia, onde a Península Coreana, dividida, é uma realidade há mais de 60 anos. Embora não haja nenhuma indicação de que os chineses pretendam modificar sua posição, ficou claro que até os mais altos líderes de Pequim ficaram surpresos com a abrupta queda de Jang, no domingo, e mais ainda na segunda-feira, com a transmissão da TV estatal norte-coreana.

"Jang era uma figura particularmente icônica da Coreia do Norte, principalmente com as reformas e as inovações adotadas no campo econômico", afirmou Zhu Feng, professor de relações internacionais na Universidade de Pequim, e especialista em Coreia do Norte. "Ele é o homem com o qual a China contava para fazer deslanchar a economia na Coreia do Norte. Trata-se de um sinal bastante negativo."

A destituição de Jang foi um choque não apenas porque ele era considerado havia muito tempo um membro fundamental da elite que governa o país, regente e confidente de Kim, que assumiu o poder somente dois anos após a morte do pai, Kim Jong-il. A maneira como foi afastado também é considerada extraordinária, porque o governo da Coreia do Norte vem mantendo segredo sobre sua dinâmica interna, lutas pelo poder e corrupção nas mais de seis décadas de governo da família Kim.

"Kim Jong-un declarou dentro e fora do país que era o único e verdadeiro líder do Norte, que não toleraria um número 2", disse Yang Moo-jin, analista da Universidade de Estudos Norte-Coreanos em Seul, Coreia do Sul.

Jang visitou a China em diversas ocasiões e era considerado o defensor mais importante da reforma econômica de estilo chinês que o governo de Pequim estimula a Coreia do Norte a adotar.

Aos 67 anos, Jang pertence à mesma geração dos atuais líderes da China. Ao contrário de Kim, de 30 anos - que não foi à China e continua um mistério, apesar da estirpe de seu avô, o fundador revolucionário da Coreia do Norte, Kim Il Sung -, Jang era visto por Pequim como um político de mão firme e um canal confiável junto à liderança da Coreia do Norte. Era um dos poucos interlocutores norte-coreanos de alto nível com a China.

O fato de o vídeo da prisão de Jang, no domingo, numa reunião de militares, ter sido transmitido para o público norte-coreano, cheio de subordinados denunciando-o aos prantos, foi particularmente perturbador para a China.

Jang esteve em Pequim em agosto de 2012 para uma visita de seis dias, reunindo-se com o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao. As zonas econômicas especiais, em que investidores chineses e de outros países obteriam tratamento diferencial na Coreia do Norte, foram prioridade no encontro.

No mês passado, a imprensa oficial norte-coreana anunciou que seriam abertas outras 14 novas zonas econômicas especiais, que embora sejam relativamente pequenas, são consideradas um sinal da adoção de algumas das reformas defendidas pela China.

"Essas zonas são resultado das iniciativas de Jang", disse ZhuFeng. "É possível que Jang tenha ido longe demais na descentralização e isso ameaçasse a posição de Kim Jong-un."

A imprensa oficial da China deu grande destaque às acusações contra Jang, inclusive algumas na linguagem colorida usada na mídia estatal norte-coreana que publicou a ladainha de suas transgressões às custas do partido reveladas recentemente: mulherengo, amante de jogos de azar, drogado, "comendo e bebendo nos salões reservados dos restaurantes de luxo" e, o que é talvez mais importante, a ambição política de desafiar Kim como "centro unificador".

Mas também entre os crimes que Jang teria cometido estava a venda de recursos do país a preços irrisórios, acusação que visa diretamente à China, maior compradora de minério de ferro e minerais da Coreia do Norte.

Loo depois de assumir o poder, Kim queixou-se de que os recursos da Coreia do Norte, os raros que permitem o ingresso de moeda forte no país, estavam sendo vendidos muito barato. Ele exigia preços mais altos para os minérios, terras raras e carvão, exportados por um número cada vez maior de joint ventures entre a China e a Coreia do Norte.

As queixas de Kim foram amplamente divulgadas na China e irritaram mineradoras chinesas caçadoras de bons negócios; várias acabaram abandonando suas operações norte-coreanas.

O clima para investimentos chineses na Coreia do Norte, que já não era particularmente favorável, deverá piorar, opina Andrei Lankov, autor do livro The Real North Korea e professor de história na Kookmin University, de Seul.

O Ministério do Exterior chinês limitou-se a fazer comentários comedidos na segunda-feira a respeito da demissão de Jang, chamando-a de assunto interno do país vizinho.

"Continuaremos empenhados em promover as tradicionais relações amistosas e de cooperação" entre a China e a Coreia do Norte, disse o porta-voz do ministério, Hong Lei.

A demissão de Jang aumentou a possibilidade de uma intensificação da instabilidade na Coreia do Norte, num momento em que a China já se defronta com novas tensões com dois dos outros vizinhos do norte da Ásia: Japão e Coreia do Sul.

A China teme particularmente o colapso do governo da Coreia do Norte, aliada desde a Guerra da Coreia, que poderia levar à reunificação da Península Coreana sob um governo da Coreia do Sul aliado dos Estados Unidos.

"A China está preocupada com a instabilidade que decorreria de ações como a saída de Jang", disse Andrei Lankov. Cheong Seong-chang, analista sênior do Instituto Sejong da Coreia do Sul, afirmou que a demissão pode indicar mais luta interna. "Considerando a atitude extremamente dura em relação a Jang e seus seguidores", observou, "será inevitável uma rodada de expurgos sangrentos, porque o regime procurará extirpar as ervas daninhas das fileiras da liderança."

Outra preocupação da China é a possibilidade de Kim realizar um teste nuclear, segundo Roger Cavazos, especialista americano em Coreia do Norte.

Em fevereiro, num gesto de aberto desafio aos chineses, Kim autorizou o terceiro teste nuclear do país. Os chineses haviam pedido ao novo líder norte-coreano que não corresse o risco de um confronto aberto com os EUA detonando a bomba. Pouco depois, numa rara crítica pública, o presidente da China, Xi Jinping, acusou a Coreia do Norte de criar instabilidade regional para "obter ganhos egoístas".

"Todos os chineses com os quais falei temiam que Kim Jong-un autorizasse o teste", afirmou Cavazos, ex-funcionário da inteligência do Exército dos EUA e atualmente membro do Nautilus Institute, grupo que estuda a segurança internacional.

Cavazos disse que estudiosos chineses estão preocupados com a possibilidade de Kim "estar cada vez mais descontrolado". E acrescentou: "Todo teste nuclear da Coreia do Norte deixa a China numa posição muito ruim".

Isso em grande parte porque, quanto mais a Coreia do Norte estiver perto de demonstrar que consegue a miniaturização de uma arma nuclear a ser instalada num míssil, mais os EUA aumentarão suas defesas contra mísseis no nordeste da Ásia.

Na opinião de Cai Jian, vice-diretor do Centro para Estudos Coreanos da Fudan University de Xangai, é possível que os militares tenham sido os vencedores na reformulação do alto escalão ordenada por Kim, "É provável que as Forças Armadas se fortaleçam e a linha dura se torne ainda mais dura".

Cavazos concordou: "Os militares estão demonstrando sua lealdade a Kim Jong-un, e Kim Jong-un está demonstrando sua lealdade aos militares".

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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