Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Mostra de cinema online celebra a obra de Domingos Oliveira

Com 14 filmes do diretor, incluindo seu último trabalho, ‘Os 8 Magníficos’, ciclo pode ser visto até dia 31 de maio, gratuitamente

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2020 | 05h00

Quatro atores e quatro atrizes, reunidos no apartamento de um deles e conversando sobre sua profissão compõem Os 8 Magníficos, último trabalho de Domingos Oliveira (1939-2019), inédito ainda no circuito comercial. O filme pode ser visto, juntamente com outras 13 obras do diretor, na plataforma do Inffinito Film Festival, de forma gratuita até 31 de maio. Completa o ciclo online o longa documentário Domingos, sobre o cineasta, dirigido por Maria Ribeiro, uma das “magníficas”.

O resto do grupo é formado por Fernanda Torres, Carolina Dieckmann, Sophie Charlotte, Wagner Moura, Du Moscovis, Alexandre Nero e Mateus Solano. Domingos preside a reunião da turma e, por vezes, a transforma em lúdica dinâmica de grupo, no qual os profissionais, todos bem conhecidos do público, falam de inquietações, inseguranças, alegrias e aspirações de vida e de palco. Uns falam mais que os outros. Entre as mulheres, Fernanda Torres se destaca. Entre os homens, Wagner Moura. 

O trabalho de câmera evita enquadramentos óbvios e, na maior parte do tempo, a tela é divida em duas – uma câmera em close sobre quem está falando, a outra, em plano geral sobre o grupo, reunido ora nos sofás da sala, ora em torno de uma mesa. Telas divididas são como sapatos novos; incomodam só no começo, depois a gente se acostuma e passa a gostar.

É um longa agradável, celebração da arte da atuação, que Domingos, ele próprio ator, tinha em alta conta. Uma despedida digna do grande cineasta que foi exibida apenas no Festival do Rio do ano passado. Tanto o último filme como o documentário em sua homenagem podem ser boas introduções ao universo estético de Domingos, aliás muito bem representado na mostra online. A começar por suas obras inaugurais, nos anos 1960, Todas as Mulheres do Mundo (1966) e Edu, Coração de Ouro (1967).

Todas as Mulheres, com Paulo José e Leila Diniz, é uma das obras-primas do cinema brasileiro. Numa época muito politizada no cinema nacional (refletindo o clima do País), Domingos destoava, falando de relações amorosas, de encontros e desencontros. Isso numa chave muito moderna, tanto do ponto de vista comportamental quanto estético, filmando com leveza nouvelle vague e tendo dois protagonistas jovens, talentosos e bonitos, que brilhavam na tela. O filme não perdeu nada do seu encanto.

Os outros títulos disponíveis são da fase mais contemporânea de Domingos e abrangem desde os premiados Carreiras (2005), Amores (1998) e BR 716 (2016) até obras menos conhecidas, como Paixão e Acaso (2012). Completam o ciclo Infância (2014), Juventude (2008), Separações (2002), Aconteceu na Quarta-feira (2018) e Feminices (2004). 

A obra de Domingos é intensamente pessoal. Muita gente o compara a Woody Allen, e não deixa de ter razão. Mas talvez Éric Rohmer seja uma referência ainda mais forte – se é que precisamos de referências para situar obra tão original. A pegada é autoral, centra-se me relacionamentos humanos e amorosos e, quase sempre, em histórias que se passam na zona sul carioca. Não por acaso, seu extraordinário ensaio memorialístico BR 716, vencedor do Festival de Gramado, refere-se ao seu apartamento de juventude situado na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. 

A mostra Domingos Oliveira online é promovida pela Circuito Inffinito de Festivais, dirigido por Adriana L. Dutra, Claudia Dutra e Viviane Spinelli. O grupo organiza os festivais de cinema brasileiro em Miami e Nova York. Para discutir a obra de Domingos, haverá uma série de lives no Instagram (Teatro Ilustre Produções Artísticas).

Tudo o que sabemos sobre:
Domingos Oliveiracinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.