Motorola tenta a volta por cima

Empresa lança smartphones com software do Google e busca voltar a ser relevante no mercado de celulares

Saul Hansell, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

A lua de mel de Sanjay Jha como copresidente executivo da Motorola durou apenas os minutos iniciais de sua primeira reunião com os empregados, em 2008. "Por que deveríamos confiar em você?", um funcionário deixou escapar. A frustração era compreensível. A Motorola, pioneira em telefones celulares que criou favoritos do público como StarTac e Razr, teve uma sucessão de líderes que não conseguiram lançar um telefone arrasador em anos.

Jha, de 46 anos, um engenheiro que avançou na Qualcomm de projetista de chip à posição de terceiro principal executivo, respondeu ao desafio dizendo aos empregados que eles não deviam se fiar nas suas palavras, mas observar o que ele fazia. Jha lembrou numa entrevista recente que ele havia esperado, no mínimo, que sua conversa desse à equipe um conforto geral de que ele " não era um camelô". Ele sabia que teria de agir rápido para cortar custos e tirar de linha dezenas de telefones baseados em tecnologia quase obsoleta que simplesmente não eram lucrativos. Isso transformou os últimos meses de 2008 num desastre financeiro - os prejuízos dobraram e as vendas caíram em um terço.

Jha também sabia que só tinha um ano para entregar novos aparelhos capazes de competir com o iPhone da Apple, se quisesse ter alguma esperança de conservar a confiança dos empregados, investidores e clientes da Motorola - para não mencionar seu conselho de administração, que o atraíra com uma enorme oferta de ações e opções. "Se eu não tivesse telefones inteligentes no mercado até o Natal de 2009, esta empresa poderia sofrer uma debandada", disse ele.

Jha não colocou a Motorola voando de novo, mas pelo menos a preparou para a decolagem. Na quarta-feira, a Verizon Wireless apresentou o novo smartphone Droid da Motorola, que é quase tão fino quanto um iPhone, mas com uma tela maior e um teclado que desliza para fora. A T-Mobile começou a vender outro smartphone da Motorola, chamado Cliq.

"A Motorola é um lugar diferente do que era há um ano", disse Paul E. Cole, vice-presidente para desenvolvimento de produtos da T-Mobile. "Sanjay fez um trabalho espetacular." Olhando para trás, Jha disse que a Motorola estava em pior forma do que ele achava quando assumiu o emprego, em grande parte por causa de uma cultura de administração disfuncional que perdera o barco da virada das preferências do consumidor, dos telefones criados principalmente para falar para os que fazem quase tudo que um computador faz. Mas o talento de engenharia da empresa continuava intacto, disse ele.

Quis o destino que um daqueles engenheiros, Rick Osterloh, procurasse Jha no momento em que ele saía do palco naquela primeira reunião informal em agosto de 2008. Jha havia mencionado o sistema operacional Android, do Google, para telefones inteligentes. Osterloh correu para o palco para lhe dizer que estava trabalhando num celular Android, no posto avançado da Motorola no Vale do Silício, que reuniria mensagens de texto, correio eletrônico e atualizações de rede social.

No final daquela semana, Osterloh estava sentado no jato corporativo, voando com Jha para a Califórnia e explicando o conceito Android em detalhes. Alguns dias depois, os 12 membros principais do grupo de Osterloh se reuniram numa conferência no escritório da Motorola em Sunnyvale, Califórnia, para avaliar o trabalho feito até ali. A reunião de quatro horas fora programada para as 18 horas, um choque para a cultura do 9 às 17 da Motorola. E Jha não só pedira o PowerPoint da apresentação antecipadamente, como havia lido todos os 100 slides e feito perguntas tão detalhadas que os apresentadores tiveram de apresentar mais 20 slides. "Ele conseguiu compreender o que estávamos fazendo num nível muito detalhado. Fiquei muito impressionado", disse Osterloh.

No outono de 2008, Jha recebeu um e-mail da Verizon, pedindo ideias para "um lançamento arrojado para o quarto trimestre" de 2009, recordou Jha. Isso significava um telefone inteligente para competir com o iPhone. Ele voou para a sede da empresa de comunicação em Basking Ridge, Nova Jersey, levando modelos de vários projetos recentes da companhia. Os executivos da Verizon pareciam inclinados a um aparelho fino, anguloso, que fora desenhado em Londres. Mesmo sem uma ordem firme, Jha imediatamente encarregou Iqbal Arshad, que fora o gerente de projeto da versão do Razr da Verizon, de transformar a maquete num celular para a Verizon vender um ano depois.

"Sanjay disse: Queimem os navios e concentrem-se no Android", recordou Arshad. Isso significava rearranjar o interior já abarrotado para acomodar os chips maiores necessários para conectar com a rede da Verizon. Ao mesmo tempo, o design geral do telefone precisava ser bastante atraente para disputar com o iPhone.

Eles descobriram uma maneira de encaixar um teclado corrediço num telefone que era apenas 1,5 milímetro mais espesso que o iPhone. E usaram uma tela de toque de 3,7 polegadas, nitidamente maior que a tela de 3,5 polegadas do iPhone.

Jha voltou ao palco na última quarta-feira, desta vez para uma coletiva à imprensa para apresentar formalmente o Droid, que será colocado à venda na próxima semana por US$ 199. Analistas presentes disseram que o Droid, que será apoiado pela maior campanha publicitária da Verizon Wireless, é um marco essencial na recuperação da Motorola. "Conseguir apresentar um aparelho básico sedutor que está recebendo tanta promoção da Verizon e realmente mostra as habilidades de seu hardware - parece que a aposta deles no Android vai compensar", disse Avi Greengart, diretor de pesquisa para aparelhos de consumo da Current Analysis. "Se eles não tivessem lançado algo assim, estariam fora do negócio."

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