Motosserras ainda agem em reserva

No início do ano, o secretário de Meio Ambiente de São Félix do Xingu, Luiz Alberto de Araújo, pediu um "voto de confiança" ao Ministério do Meio Ambiente para deixar a lista dos municípios que mais desmatam a Amazônia. Dos três requisitos exigidos pelo ministério, dois haviam sido cumpridos: mais de 82% dos proprietários rurais aderiram ao Cadastro Ambiental Rural, e o desmatamento caiu 85% em relação à média de abate registrada entre 2005 e 2008.

SÃO FÉLIX DO XINGU (PA), O Estado de S.Paulo

18 Março 2012 | 03h08

Falta cumprir a terceira exigência, de desmatamento inferior a 40 km2. Em 2011, as motosserras puseram abaixo 145,7 km2 de floresta em São Félix. O Ministério do Meio Ambiente ainda avalia o pedido, com base na dimensão de São Félix do Xingu. O município tem 84 mil km2, mais de 80% deles ainda cobertos por floresta.

O principal foco de desmatamento está na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, que abriga uma das maiores propriedades rurais do município, uma fazenda do grupo Santa Bárbara, do investidor Daniel Dantas. A fazenda deu entrada do Cadastro Ambiental Rural para liberar a venda de gado para o abate. A APA também abriga assentamentos de reforma agrária.

De acordo com dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o desmatamento na APA cresceu no período em que a taxa do município caia, entre agosto de 2010 e julho de 2011. Passou de 44 para 48 km2 em um ano. Na Área de Proteção Ambiental criada pelo governo do Estado do Pará, a cobertura de floresta é inferior aos 81% de floresta remanescente no município.

Pequeno produtor instalado há 25 anos na APA, Raimundo Freire dos Santos confirma que ainda há produtores abrindo áreas de pastagem na Triunfo do Xingu. Ele participa do conselho responsável pela elaboração de um plano de manejo para a APA, onde ninguém detém título de propriedade. "O melhor negócio era mesmo assinar o pacto do desmatamento, o mercado se fechou até para o pequeno produtor." Ele já recuperou cerca de 20 hectares da propriedade, de pouco mais de 100 hectares, e planta cacau.

O secretário de Meio Ambiente participou da negociação do pacto contra o desmatamento, assinado em agosto do ano passado. Apesar de ter assinado um pedido de "voto de confiança" para o São Félix do Xingu deixar a lista dos maiores desmatadores, admite riscos de o desmatamento voltar a crescer. "Não podemos ter ilusão. Só vamos controlar o desmatamento quando tivermos alternativas econômicas sustentáveis."

"Risco existe", reconhece Mirela Sandrini, gerente do Fundo Vale, que patrocina parcerias para o desenvolvimento sustentável no município. "A questão não é só sair da lista, é manter o município fora dela", completou. / M.S.

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